O Mundo Interior

O Mundo Interior

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em abr. 2020

            A obra O Mundo Interior, de Farias Brito, representa a obra de maturidade do filósofo brasileiro. O Mundo Interior foi escrito em um contexto “conturbado da história contemporânea, em que a filosofia materialista parece fortalecer-se no interior do cotidiano, seja em relação ao senso comum, seja no tocante ao conhecimento científico, professado nos meios acadêmicos” (MARINHO, 2007, p. 10). As filosofias materialistas contém o “gérmen do pessimismo, da morte, do nada, enfim, da demolição” (MARINHO, 2007, p. 10), ao qual era necessário combater com todo vigor, contrapondo uma filosofia do espírito, uma filosofia que permitisse ao homem “voltar-se para o seu interior, conhecer-se a si mesmo e dar continuidade à sua evolução espiritual” (MARINHO, 2007, p. 10).

           A proclamação do materialismo de que tudo é matéria e que não existe nada além da matéria conduz a consequências desastrosas e em razão disso “o mundo fez-se trevas; a vida perdeu todo o seu sentido e todo o seu valor; e uma noite impenetrável encerrou os horizontes do espírito” (BRITO, 1914, p. 44 apud MARINHO, 2007, p. 13). O materialismo é a forma completa da filosofia do desespero pois, se não existe nada além da matéria, uma tristeza profunda deve invadir o coração do homem que não encontrará além da morte. Em face da morte a única coisa que o homem pode encontrar é o vazio e o desespero. O quadro que se desenha pela tinta do pensamento positivo e materialista ao espírito humano no início do século XX é o da inconsciência, da morte, do nada. “Noutras palavras: tudo volta ao nada, que é o fim e a verdade definitiva da vida. E, além disso, viver é sofrer, sendo o prolongamento da vida a manutenção eterna do sofrimento. A vida é, assim, uma agonia contínua, sendo o nascimento o início da morte” (MARINHO, 2007, p. 13). É como se pudéssemos ver diante dos nossos olhos ao nascer para a vida a inscrição dantesca: “Deixai toda esperança, vós que entrais” (MARINHO, 2007, p. 14).

        Como vencer este desespero? Como dar um basta a esta situação caótica gerada pelo pensamento positivo e materialista? Apenas fazendo renascer a filosofia do espírito. Como Descartes, Farias Brito pensa o espírito como uma verdade indubitável e pensa a necessidade de uma filosofia do espírito. Tal é o propósito de Farias Brito com esta obra.

É nesse sentido que Farias Brito elabora a sua obra O Mundo Interior, contrapondo ao materialismo e seus apêndices um espírito novo na filosofia, que permita ao ser humano readquirir a consciência de si mesmo, que parece ter perdido, e que foi o ponto central do pensamento antigo, em Sócrates (c. 469-399 a. C.), quando exortava o homem, com voz profética e segura: “Conhece-te a ti mesmo” (MARINHO, 2007, p. 15-16).

            Uma obra escrita no final da vida do filósofo e que, por isso, deve representar a maturidade de seu pensamento. Brito teve tempo de repensar toda sua obra. Refazer aspectos que considerava essenciais, ou então, desenvolver ainda mais os seus primeiros pensamentos e, no caso de Farias Brito, parece que podemos encontrar tanto uma como outra. Se houve uma evolução no pensamento de Farias Brito, desenvolvimento de ideias já esboçadas desde o início de sua obra, também houve modificação e reavaliação do pensamento, como podemos perceber claramente na transição do filósofo de uma concepção monista e deísta, para uma concepção de um Deus pessoal e criador.

            Nesta obra encontramos também traços significativos de semelhança da obra do filósofo brasileiro com o pensamento do filósofo francês Henri Bergson, onde podemos estabelecer importantes pontos de contato, da qual daremos ênfase à ideia de intuição (como veremos mais adiante).

 

Conceito de Filosofia

            Já vimos como o filósofo brasileiro defende a necessidade de uma filosofia do espírito que combata as consequências nefastas que as ideias materialistas têm para o espírito humano. Uma filosofia do espírito deve ser aquela mesma que se estabeleceu desde o início da história e que, no entender de Farias Brito

corresponde à “filosofia perene”, de Leibniz (1646-1716), constituída por tudo que há de verdadeiro em todos os sistemas filosóficos; a filosofia cujo pensamento permanece para além da transitoriedade dos conteúdos acidentais de tantas doutrinas filosóficas que o mundo já conheceu. Essa filosofia, a filosofia do espírito, vê na vida um dos processos do espírito e faz do mundo o cenário onde o espírito representa o seu existir. Esta filosofia tem por concepção fundamental o espírito (MARINHO, 2007, p. 14-15).

            Para o filósofo brasileiro a filosofia é a “ciência das ciências”, porque estuda o espírito, isto é, “o princípio dos princípios e a verdade das verdades, o fundamento de toda a realidade e a base de todo o conhecimento” (BRITO, 2006, p. 87). Não é ciência dos fenômenos, mas ciência que estuda o ser em seu mistério interior, em sua significação mais íntima e profunda. As demais ciências estudam a realidade como fenômenos, a filosofia é ciência intuitiva, visão interior.

            Sendo a filosofia ciência intuitiva, que estuda a realidade metafisicamente, de um ponto de vista transcendente, o valor e a significação da existência, a “fenomenalidade psíquica” só pode ser alcançada pelo método introspectivo transcendente.

 

Concepção de Mundo

            A concepção de mundo do filósofo é espiritualista. A certeza da existência do espírito e que resiste a toda dúvida encontramo-la no cogito. E este, o espírito, não pode ser objeto de estudo de uma ciência qualquer. O espírito manifesta-se na consciência, quer dizer, no eu penso. Por isso, só podemos atingi-lo por observação interna ou introspecção. Entretanto, a filosofia jamais pode ser considerada a mesma depois de Kant. É necessário, antes de podermos chegar ao espírito no sentido natural e empírico, estabelecer uma teoria ou crítica do conhecimento.

            Se nós conhecemos as coisas exteriores somente como fenômenos, quer dizer, como se apresentam exteriormente a nós, sem que possamos conhecer o que uma coisa é em sua substância pela intuição imediata, existe, no entanto, pelo menos uma coisa que podemos conhecer por intuição direta e imediata: o nosso espírito, o nosso eu pensante. Se indagarmos o que constitui a nossa verdadeira existência, a coisa-em-si de nosso ser, devemos reconhecer que é nosso espírito, cuja realidade só podemos atingir por observação interna, ou introspecção, única via de acesso à coisa-em-si.

            Do estudo do espírito, da existência consciente de si, íntima e profunda, é preciso buscar o ser que explique a existência deste mesmo espírito e de todas as outras coisas: a coisa-em-si por excelência, a Inteligência Suprema, que tradicionalmente se chama Deus.

            A ideia de uma filosofia, em parte coincidente com uma psicologia, uma psicologia transcendente, uma filosofia supercientífica, parece então justificado. Filosofia intuitiva que nos permite chegar a ideia do nosso eu mais profundo, e do Ser que é a causa e origem de todas as coisas. Farias Brito insiste na identificação da metafísica com a psicologia. Não a psicologia comum – grupo das ciências psicológicas – mas a psicologia transcendente, saber intuitivo e concreto, visão interior através da qual o sujeito se apreende como ser pensante, sempre em desenvolvimento, devido à infinidade de seu objeto.

 

Análise comparativa com o pensamento bergsoniano

            “[...] já não se pode filosofar sem tratar de Bergson” (BRITO, 2006, p. 233). Encontramos estas palavras logo na primeira página do Capítulo III intitulado Ainda desenvolvimento sobre a questão da “cousa em si” e dos fenômenos: a filosofia de Bergson. E eis como ele conclui sua obra: “de toda forma, a verdade fundamental, a verdade que é o centro de todo o trabalho do espírito e o princípio mesmo do método, é ainda e será talvez sempre, a que se encerra no velho preceito socrático Conhece-te a ti mesmo” (BRITO, 2006, p. 434). Vemos aqui dois pontos fundamentais: como o filósofo brasileiro ressalta a importância das contribuições de Bergson para o estudo da filosofia – sobretudo a filosofia que se volta para as questões mais fundamentais da existência humana –, e como esta questão se relaciona com o preceito socrático que enfatiza a ideia da filosofia como uma busca introspectiva e autorreflexiva.

            No que diz respeito ao filósofo francês a análise de Brito é feita

tomando por base as seguintes obras: Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, na qual Farias Brito enxerga a instauração de uma metafísica da liberdade; Matéria e Memória, na qual, segundo Farias Brito, está em jogo uma metafísica da matéria; e A Evolução Criadora, que, para Farias Brito consiste numa metafísica da vida (SANTOS, 2018, p. 47).

            Podemos acrescentar nesta análise também as ideias de Bergson em torno do conceito de intuição e é sobre ela que iremos apresentar algumas reflexões.

            Para Bergson a intuição é a visão direta do espírito pelo espírito. Tal como o filósofo francês, Farias Brito pensa ser possível conceber uma investigação metafísica, de gênero propriamente filosófico, através da intuição e que deverá constituir o próprio órgão da metafísica. E por isso não é de se estranhar que ele diga: “Ligo-me, assim, não à tradição de Heródoto, mas à de Sócrates; e o princípio do meu método é ainda o preceito socrático: conhece-te a ti mesmo” (BRITO, 2006, p. 142).

            Enquanto as ciências propriamente ditas tem o seu órgão na inteligência, a metafísica o tem na intuição e seu objeto apropriado na vida espiritual. Entre a metafísica e a ciência há, portanto, uma diferença de objeto e de método. Uma vez que o espírito e matéria se tocam, também ciência e metafísica hão de ter um ponto comum.

            A concepção metafísica construída por Brito e que ele

denominou de metafísica naturalista, foi levada a cabo em suas obras A Finalidade do Mundo (cf. Brito, 2012, p. 55-61) e A Base Física do Espírito em termos muito próprios. Para Farias Brito há que se estar atento a uma nítida distinção entre o modo como se deve compreender o fenômeno exterior à consciência e o próprio fenômeno da consciência, sendo aquele objeto da física (em sentido lato), e este outro como objeto da metafísica (em sentido estrito) (SANTOS, 2018, p. 49).

            Se por um lado o filósofo francês exaltou e inovou a metafísica, em uma época em que o avanço e o êxito das investigações científicas ditas positivas pareciam tornar obsoletas as indagações e sobretudo a forma de resposta filosóficas, por outro lado podemos dizer algo semelhante em relação ao filósofo brasileiro. Bergson e Farias Brito tiveram, um e outro, essa capacidade de se opor ao espírito de incredulidade oriundo das ciências positivas, para mergulhar naquilo que comumente se referem como sendo o eu mais profundo.

            Observamos uma grande semelhança no modo pelo qual os dois filósofos enfatizam e definem o que eles entendem por intuição e poderíamos interpretar em ambos os pensamentos a intuição como a possibilidade de um conhecimento interior, absoluto; função metafísica do pensamento, conhecimento íntimo do espírito pelo espírito. Segundo Almada e Cerqueira (2010, p. 85), Brito se contrapõe à intuição (Anschauung) kantiana como “visão da existência como objeto dos sentidos e do entendimento (isto é, como fenômeno) [...] [e] levou em conta a intuição bergsoniana (1903/2006a), que é a visão da existência como ação consciente de si”.

            Se a razão tem por característica o fato de proceder de forma analítica, fragmentada, linear, descritiva, na busca por um conceito, a intuição trabalha de forma não-linear, sintética (de síntese). Os conceitos são indispensáveis, tanto para as ciências quanto para a metafísica que não pode prescindir deles. Mas a metafísica deve proceder por intuição. Somente através da intuição poderemos procurar no fundo da alma, mediante introspecção, o objeto próprio da metafísica, o nosso eu pensante, o nosso ser verdadeiro, tal como dirá Farias Brito. O filósofo brasileiro, ao distinguir o conhecimento em científico e filosófico ressalta como

há outro meio de conhecimento além da inteligência: a intuição. A inteligência, limitada de uma parte ao mundo dos fenômenos e julgando-se de outra parte com atribuição sobre todo ele, dá-se ao mesmo tempo muito e muito pouco: em seu domínio próprio que é a matéria, ela toca no absoluto, como a intuição no seu que é a vida: fora de seu domínio ela agita-se no vácuo. A antiga oposição do fenômeno e do ser é vencida, resolvendo-se em continuidade: seja pelo pensamento, seja pela intuição, nós vivemos no absoluto, mais ou menos profundamente, conforme dele somos dignos (BRITO, 2006, p. 241).

            Se o conhecimento científico e as ciências naturais possuem como método a análise, a intuição, por sua vez, é o método próprio do conhecimento filosófico e da metafísica.

            Para Bergson não há dúvidas de que filosofar consiste em colocar-se no objeto mesmo por um esforço da intuição. Além disso, ao ampliar sua análise relacionando a experiência metafísica através da intuição com a experiência dos grandes místicos, Bergson dá um passo além. A intuição deve ser entendida não apenas como visão do espírito pelo espírito, mas também como algo que conduz o ser humano a uma espécie de sentimento interior que se confunde com o amor exaltado pelos místicos da humanidade. A filosofia eleva-nos acima da condição humana.

            Antes de encerrarmos precisamos fazer uma breve observação em relação ao fato de que, conforme aponta Almada e Cerqueira (2010, p. 86), Brito prefere utilizar o termo introspecção, considerando que o termo intuição se prestaria a equívocos: “por introspecção entende-se, expressamente, exclusivamente, a observação interior, a observação dos estados de consciência e dos movimentos do espírito”. A filosofia se baseia em um método introspectivo, único capaz de permitir chegar ao conhecimento da “coisa em si” ou do “espírito”. A substância e o ser verdadeiro de todas as coisas, isto é, o espírito, só pode ser conhecida por observação interior. Não há possibilidade de conhecer o espírito a não ser por intuição (Bergson) ou introspecção (Brito): “para conhecer qualquer coisa do espírito é necessário sentir, aprender, de modo direto, imediato, interno, o que se passa no ser mesmo, ler no fundo da consciência” (BRITO, 2006, p. 424).

 

Referências Bibliográficas

ALMADA, Leonardo F.; CERQUEIRA, Luiz A. Defesa da introspecção como método filosófico de acesso à consciência de si: Farias Brito em faze de Henri Bergson e Edmund Husserl. Memorandum, 19, 79-100, 2010. Acesso em: 23 abr. 2020.

BRITO, Raimundo Farias. O mundo interior: ensaio sobre os dados gerais da Filosofia do Espírito. Brasília: Senado Federal, 2006. (Edições do Senado Federal, v. 52).

MARINHO, José Antônio B. O renascimento da filosofia do espírito na visão de Farias Brito. Revista Educação, v. 2, n. 2, p. 10-16, 2007. Acesso em: 21 abr. 2020.

SANTOS, Gilfranco Lucena dos. Raimundo Farias Brito e sua confrontação com Bergson: confluências e discrepâncias. Revista Ideação, n. 37, p. 46-56, jan./jun., 2018. Acesso em: 23 abr. 2020.


 

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