Pequena História das Ciências Sociais

Pequena História das Ciências Sociais

O conhecimento sociológico é uma tomada de consciência da própria ação humana e da realidade em que se manifesta... o conhecimento sociológico pode levar a um maior comprometimento e responsabilidade para com o momento e a sociedade em que se vive.

Maria Cristina Costa

            Durante milhares de anos os homens vêm refletindo sobre os grupos e as sociedades em que vivem, procurando compreendê-los. O homem é um ser essencialmente social, tendo como preocupações constantes o constituir-se uma sociedade melhor, onde todos os seus componentes possam viver relativamente mais harmoniosamente, sem as grandes calamidades que assolam a humanidade. Mas, para alcançar tal meta, é necessário conhecer bem como funciona a sociedade. Para mudar a sociedade é necessário conhecê-la, refletir sobre as relações humanas e as relações sociais, ou, no dizer de Costa (1987, p. 12): “A sociedade tem características que precisam ser conhecidas para que aqueles que nela atuam tenham sucesso”.

            As primeiras tentativas de compreender as forças sociais basearam-se mais na especulação do que na investigação científica dos fenômenos. Recorriam, por exemplo, a deuses e heróis para explicar certos fenômenos sociais. Assim, para os gregos, Zeus, senhor dos homens e dos deuses, era o deus justiceiro e bom, que mantinha a ordem no mundo moral e físico. Hera, esposa de Zeus, protegia o casamento e era a divindade tutelar da vida familiar. Na Antigüidade, durante a Idade Média e até o início da Idade Moderna, as tentativas de explicação da sociedade foram muito influenciadas pela filosofia e pela religião, as quais propunham normas para melhorar a sociedade de acordo com seus princípios. Essas primeiras tentativas de estudos sistemáticos sobre a sociedade humana começaram com os filósofos gregos Platão, em seu livro A República, e Aristóteles, com a obra Política. É de Aristóteles a afirmação de que “o homem nasce para viver em sociedade”.

            Na Idade Média, como acontecia na Antigüidade, os filósofos continuaram a descrever a sociedade em que viviam e a propor normas para que o homem vivesse numa sociedade ideal. Santo Agostinho, por exemplo, na sua obra A Cidade de Deus, achava que os homens viviam na cidade onde reinava o pecado. Propunha então normas para se viver numa cidade onde não houvesse pecado. Obras como essa descreviam a sociedade humana de uma perspectiva religiosa muito acentuada. Agostinho acreditava que ambas as cidades, a civitas dei (cidade de Deus) e a civitas terrena (cidade terrena) estão fundadas sobre o amor, sendo que a primeira está fundada sobre o amor de Deus, um amor altruísta, que não teme o sacrifício de si mesmo pelo bem comum, enquanto que a segunda é fundada sobre o amor próprio, egoísta, que despreza até mesmo o próprio Deus (cf. MONDIN, 1980, p. 119).

 

A Sociologia pré-científica

            Com o Renascimento começaram a surgir autores que trataram os fenômenos sociais num nível mais realista, embora muitos estivessem ainda influenciados pelas antigas utopias. Procurando pensar sobre a vida social e política, o homem renascentista também desenvolveu suas teorias. Os humanistas se dispunham a repensar os filósofos antigos, reinterpretando Platão e Aristóteles.

            Escreveram sobre a sociedade de sua época: Tomas Morus, Tomaso Campanella, Francis Bacon, e Erasmo de Roterdã.

            Tomas Morus é autor de Utopia – uma ilha onde existe a harmonia, tolerância, solidariedade e o equilíbrio, onde estão reunidos a verdade e o bem, não há propriedade privada e todos têm um trabalho fixado em seis horas diárias. “A Utopia constitui expressão do desejo de reforma de toda a vida social, política e religiosa dos europeus do século XVI, época de profunda renovação. Foi esse o aspecto de A Utopia que maior influência exerceu sobre os contemporâneos...” (apud MORE, 2002, p. 121). E mais adiante:

More faz severas críticas à sociedade inglesa e européia, ao mesmo tempo que apresenta a ilha de Utopia como um lugar em que a sabedoria e a felicidade do povo decorrem de um sistema social, legal e político perfeito, guiado pela razão. A Utopia fez muito sucesso na época e tornou-se modelo de todas as concepções posteriores do gênero. A mais famosa utopia da antiguidade é A República de Platão, em que o governo... é confiado a filósofos (apud MORE, 2002, p. 121).

            Além da obra Utopia encontramos outras obras desse período como: Cidade do Sol, de Tomaso Campanella; Nova Atlântida, de Francis Bacon; e O Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã.

            Dentre estes diferentes autores, aquele que sem dúvida procurou retratar a sociedade de uma forma realista, desvinculada das antigas utopias filosófico-teológicas foi Maquiavel (1469-1527). Maquiavel foi o primeiro defensor da autonomia da esfera política, sobretudo em relação a moral e a religião, quer dizer, fora de qualquer preocupação de ordem moral e teológica[1]. Além disso, Maquiavel rejeita os sistemas utópicos, a política normativa dos gregos e procura a verdade efetiva, ou seja, como os homens agem de fato. Ao observar a história dos fatos, Maquiavel constata que os homens sempre agiram pelas formas de violência e da corrupção e conclui que o homem é por natureza capaz do mal e do erro. Às utopias opõe ele um realismo antiutopista através do qual pretende desenvolver uma teoria voltada para a ação eficaz e imediata.

            Posteriormente encontramos importantes reflexões na esfera social a partir do pensamento de Hobbes, Locke e Rousseau que, sob variáveis diferentes, partem da análise do homem no seu estado de natureza. O que faz o homem abandonar este estado – se interrogam tais filósofos – para se submeter ao Estado instituído por um pacto, por um contrato social?

            Para Hobbes, os homens são deixados a si próprios no estado de natureza, o que gera insegurança, angústia e medo; no estado de natureza predominam os interesses egoístas e o homem se torna um lobo para o outro homem. O medo e o desejo de paz levam os homens a fundar um estado social, abdicando dos seus direitos em favor de um soberano, que por sua vez terá um poder absoluto.

            John Locke (1632-1704) também se destacou no campo social com suas idéias, defendendo o liberalismo político e a propriedade privada. Locke não via no estado de natureza uma situação de guerra e egoísmo, como em Hobbes; para Locke os homens são livres, iguais e independentes. No estado natural cada um é juiz em causa própria e, como os riscos de parcialidade são grandes, podendo desestabilizar as relações entre os homens, estes consentem em instituir um corpo político. Para Locke a sociedade resulta da reunião dos indivíduos com o objetivo de garantir a liberdade e a propriedade. O contrato social se realiza em nome dos direitos naturais do homem e o governo deve comprometer-se com a preservação destes direitos. O poder do governo é delegado a uma assembléia ou a um soberano e a legitimidade desse poder reside no consentimento dos indivíduos que o constituirão e que pode retirá-lo, caso não se governe no interesse da maioria ou se vier a ameaçar a liberdade e os direitos dos indivíduos. Uma de suas obras principais chama-se: Dois Tratados sobre o governo civil.

            Alguns anos depois, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) reconheceu a decisiva influência da sociedade sobre o indivíduo partindo da ideia de que o homem nasce puro e a sociedade é que o corrompe. Tal como Hobbes e Locke, Rousseau elabora seu pensamento tomando como ponto de partida o homem no seu estado de natureza, procurando resolver a questão da legitimidade do poder nascido do contrato social. No seu estado de natureza o homem é bom e simples, livre e feliz. A necessidade introduz a desigualdade que traz consigo a propriedade e o trabalho gerando a escravidão e a miséria com a diferenciação entre ricos e pobres, senhores e escravos, até a predominância da lei do mais forte. Através de uma elaborada pedagogia, Rousseau propõe a reconstrução de um homem social participante de uma sociedade racional e que respeite a natureza.

            Já no século XVIII, um avanço importante para a análise mais realista da sociedade foi a contribuição de Giambattista Vico, com sua obra A nova ciência. Nela, Vico afirma que a sociedade se subordina a leis definidas, que podem ser descobertas pelo estudo e pela observação objetiva. Sua formulação “O mundo social é, com toda certeza, obra do homem” foi um conceito totalmente revolucionário para a época. Vico atribui ao Estado uma origem divina, tal como Agostinho, mas sem o caráter pessimista que este atribui ao Estado. O Estado é uma criação providencial de Deus para tirar o homem de sua miséria e da sua situação decorrente do pecado original (cf. MONDIN, 1980, p. 120).

 

Como Surgiu a Sociologia

            A Revolução Científica, iniciada no século XVII, exerceu um papel importante para o posterior surgimento das Ciências Sociais. Se a ciência tinha sucesso na explicação dos fenômenos da natureza, poderia também explicar a sociedade, como elemento da natureza. Dentro deste contexto se desenvolve as ciências humanas, procurando inspirar-se no modelo de ciência estabelecido pelas ciências da natureza. A Sociologia, bem como as ciências humanas, surgirá da tentativa de adequar o método das ciências da natureza a compreensão dos fenômenos do comportamento humano.

            Foi no século XIX – com Auguste Comte, Herbert Spencer, Gabriel Tarde e, principalmente, Émile Durkheim, Max Weber e Karl Max – que a investigação dos fenômenos sociais ganhou um caráter verdadeiramente científico.

O aparecimento da Sociologia significou que as questões relativas às relações entre os homens deixaram de ser apenas matéria religiosa: passaram a interessar também aos cientistas. A constituição desse campo do conhecimento significou, antes de mais nada que as relações entre os homens merecem ser conhecidas e formuladas por uma nova forma de linguagem e discurso – o científico (COSTA, 1987, p. 8).

            A Sociologia surgiu no século XIX quando a racionalidade das ciências naturais e de seu método havia obtido o reconhecimento necessário para substituir a religião na explicação da origem, do desenvolvimento e da finalidade do mundo.

            Nesse momento, em que as teorias científicas passaram a substituir os dogmas religiosos, a ciência não aparecia como uma forma particular de saber, mas como o saber todo-poderoso, capaz de abolir e suplantar as crenças religiosas e até mesmo as discussões éticas. Os novos “magos” da civilização descortinariam a verdade, qualquer que ela fosse, quaisquer que fossem as opiniões pessoais dos cientistas, seus valores sobre bem e mal, certo e errado.

            Com a mesma proposta de isenção de valores com que se descobrira a lei da gravitação dos corpos celestes no universo, julgava-se possível descobrir as leis que regulavam as relações entre os homens na sociedade. Leis naturais que existiriam independentemente do credo, da opinião e do julgamento humano. Toda essa nova mentalidade orientou a formação da primeira escola científica do pensamento sociológico: o positivismo.

Isso equivaleu a criar, como nas demais ciências, métodos de averiguação e medição e a fazer formulações sobre a sociedade que pudessem ser comprovadas empiricamente – isto é, através de observação e experimentação – de modo a tornar a ação social humana explicável em termos de regularidades e previsões (COSTA, 1987,  p. 8).

            Auguste Comte é tradicionalmente considerado o pai da Sociologia. Foi ele quem pela primeira vez usou essa palavra, em 1839, no seu Curso de Filosofia Positiva. Mas foi com Émile Durkheim que a Sociologia passou a ser considerada uma ciência e como tal se desenvolveu.

Durkheim formulou as primeiras orientações para a Sociologia e demonstrou que os fatos sociais têm características próprias, que os distinguem dos que são estudados pelas outras ciências. Para ele, a Sociologia é o estudo dos fatos sociais. Um exemplo simples nos ajuda a entender o conceito de fato social segundo Durkheim: se um aluno chegasse à escola vestido com roupa de praia, certamente ficaria numa situação muito desconfortável; os colegas ririam dele, o professor lhe daria alguma repreensão e provavelmente o diretor o mandaria de volta para pôr uma roupa adequada.

            Existe um modo de vestir que é comum, que todos seguem. Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma, e, quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. Quer a pessoa goste, quer não, ver-se-á obrigada a seguir o costume geral. Se não o seguir, sofrerá uma “exclusão”. O modo de vestir é um fato social. São fatos sociais também a língua, o sistema monetário, a religião, as leis e uma infinidade de outros fenômenos do mesmo tipo.

            Para Durkheim, os fatos sociais são os modos de pensar, sentir e agir de um grupo social. Embora existam na mente do indivíduo, são exteriores a ele e exercem sobre ele um poder coercitivo. Resumindo, podemos dizer que os fatos sociais têm as seguintes características: generalidade (o fato social é comum aos membros de um grupo); exterioridade (o fato social é externo ao indivíduo); coercitividade (os indivíduos vêem-se obrigados a seguir o comportamento estabelecido).

            Em virtude dessas características Durkheim considera que os fatos sociais podem ser estudados objetivamente, como “coisas”. Como a Biologia e a Física estudam os fatos da natureza, a Sociologia pode fazer o mesmo com os fatos sociais. As obras de Durkheim foram importantes para definir os métodos de trabalho dos sociólogos e estabelecer os principais conceitos da nova ciência. Entre essas obras, destaca-se: A divisão do trabalho social, As regras do método sociológico e O suicídio.

            Max Weber também deu importantes contribuições a Sociologia, ao postular como objeto de estudo desta, a ação social, entendida como conduta humana, pública ou não. A Sociologia, na interpretação de Weber, é uma ciência que tem por objeto compreender claramente a conduta humana e fornecer explicação causal de sua origem e resultados. Se são as atitudes que explicam a conduta social, faz-se necessário pesquisar a natureza e a operação desses fatores, levando-se em consideração, principalmente, serem estas atitudes afetadas ou modificadas por motivos e ações de outros indivíduos. Padrões e categorias de validade sociológica revelar-se-iam através da atividade do indivíduo em suas relações com outras pessoas. A conduta social seria, então, o caminho para a compreensão da situação social e o entendimento das intenções. Portanto, a compreensão social deve envolver a análise dos efeitos que o ser humano procura conseguir.

            Contribuição igualmente relevante para o estudo da sociologia veio do filósofo alemão para o qual você encontra uma seção específica sobre suas ideias e teorias. Veja o link: Karl Max.

 

Referências Bibliográficas

COSTA, Maria Cristina Castilho. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Moderna, 1987.

MORE, Thomas. A Utopia. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2002.

MONDIN, B. Introdução à Filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. Tradução de J. Renard. São Paulo: Paulus, 1980.



[1] Posteriormente, Hobbes e Spinoza vão reforçar essa autonomia. Sob uma perspectiva filosófica, Kant irá manter essa distinção mas afirmando que a política não pode subtrair-se à jurisdição universal da ética e nem esta prescindir daquela. “Qualquer diferenciação entre ética e política é, no entanto, recusada por Hegel, segundo o qual a fonte suprema de toda moralidade é o estado” (MONDIN, 1980, p. 123).

 

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