Pestalozzi: pai dos órfãos, educador da Humanidade

Pestalozzi: pai dos órfãos, educador da Humanidade

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em mar. 2020

            Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) foi um pedagogo Suíço, de orientação religiosa protestante e se considerava um cristão sem defender uma religião específica. Seu pensamento enfatizava a manifestação da divindade através do ser humano e da caridade, que ele praticou principalmente em favor dos pobres. Por isso Pestalozzi não foi um iluminista típico, por sua forte tendência religiosa. Foi influenciado pelo movimento naturalista após a leitura da obra Emílio, do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau (as impressões que o filósofo iluminista deixou em Pestalozzi foram tão fortes, que Pestalozzi deu ao seu único filho o nome de Jean-Jacques) e se envolveu em lutas políticas desde a juventude, fazendo parte da Sociedade Helvética – um movimento intelectual contra o poder aristocrático na Suíça. Em 1798, com a forte influência da Revolução Francesa, é deflagrada a Revolução Suíça e Pestalozzi se torna redator da Folha Popular Helvética.

            É dessa época, quando Pestalozzi já tinha mais de 50 anos, que ele terá uma oportunidade de exercitar seu método, ao ser chamado para dar aulas aos órfãos da batalha de Stanz que acabou sendo uma de suas experiências pedagógicas mais produtivas (sobre a experiência de Stanz, ver Siqueira, 2012, p. 63-; e a Carta de Stanz apud Siqueira, 2012, p. 96-108 e Lopes, 1981, p. 53-71). “As lutas pela independência e a presença de tropas francesas intervencionistas de Napoleão Bonaparte na Suíça deixaram muitas crianças que vagavam sem pais, sem casa e sem comida em torno do Lago de Lucerna” (BRETTAS, 2018, p. 418).

 

 

“Pestalozzi e os órfãos de Stan”

Pintura em óleo sobre tela (1879) de Konrad Grob

apud BRETTAS, 2018, p. 419

 

 

            Em um contexto em que a educação era privilégio de poucos, Pestalozzi forneceu oportunidade de aprendizado às crianças órfãs que vagavam no Cantão de Unterwalden, sem casa, comida ou abrigo. Pestalozzi as reuniu em um convento abandonado, e passou a educá-las:

acolheu cerca de quatrocentas crianças de cinco a quinze anos que lhe foram dadas a seus cuidados. Neste local o filósofo desenvolveu seus métodos educacionais com princípios básicos pautados na observação e percepção sensorial. O ensino devia começar pela experiência imediata da criança, com o estudo do meio ambiente e posteriormente, o estudo da linguagem (MIRANDA; SANTOS, 2015, p. 4).

            Em 1799 o edifício foi requisitado pelos franceses para transformar em um hospital e Pestalozzi teve que abandonar o projeto.

            Mais duas experiências se seguiram: em Burgdorf (SIQUEIRA, 2012, p. 71-79) e Yverdon (SIQUEIRA, 2012, p. 80-84). Obrigado a abandonar o projeto com as crianças órfãs de Stanz, Pestalozzi obteve permissão do exército francês para manter uma escola em Burgdorf, onde permaneceu trabalhando entre 1800 e 1804: “O Instituto de Burgdorf abriu suas portas em janeiro de 1801 e, desde o início, demonstrou grandes progressos, sendo que isso se devia, principalmente, à grande devoção de Pestalozzi e Krüssi [seu amigo e grande colaborador]” (SIQUEIRA, 2012, p. 72).

            Já em Yverdon se dedicou por vinte anos (1805 a 1825) ao seu trabalho, dando aulas para estudantes de várias origens e comandando uma equipe de professores.

 

 

Estátua de Pestalozzi em Yverdon les Bains

Disponível em: Wikipedia, acesso em fev. 2020

 

 

 

            Yverdon projetou o nome de Pestalozzi no exterior e foi visitada por muitos dos grandes educadores da época. Dentre seus discípulos talvez o mais famoso seja Denizard Rivail (mais conhecido como Allan Kardec) além de Friedrich Fröbel e Madame de Staël.

 

 

O Instituto Yverdon funcionava em regime de internato e com espírito de família, aplicando-se em sua plenitude o método pestalozziano. Conforme acrescenta Soetard (2010, p.21) “Pessoas de todas as partes foram observar este novo fenômeno pedagógico e aprendizes de professor foram [...] para serem treinados no método Pestalozzi”. O instituto se expandiu e adquiriu fama em toda Europa (MIRANDA; SANTOS, 2015, p. 4).

            Com o grande prestígio do Instituto de Educação de Yverdon houve um aumento significativo de estudantes, inclusive estrangeiros. Mesmo assim, Pestalozzi “esforçou-se de todas as maneiras para que aquela atmosfera doméstica em que se inserira anos antes em Stanz prevalecesse também em Yverdon” (SIQUEIRA, 2012, p. 81). Em Yverdon não havia a mesma rigidez disciplinar dos internatos e eram proibidos qualquer espécie de castigo corporal. Os alunos corriam e brincavam e os portões do instituto estavam sempre abertos. Os estudos alternavam-se com trabalhos manuais, jogos, excursões, educação física.

            Cada instituto foi fundado nas ideias de como Pestalozzi acreditava ser o melhor método de ensino:

Em Neuhof [onde teve suas primeiras experiências como educador] demonstra que o contato com a natureza é imprescindível; em Stanz, colocando às claras o princípio do amor, aprimora como nunca a idéia de que o lar é fundamental para a formação da moral nos indivíduos e de que a escola deve ser tal qual a própria família; em Burgdorf distingue as diversas áreas que compõem suas hipóteses e aprende a lidar com uma enorme variedade de culturas; mas foi em Yverdon que todos esses princípios tomaram forma e amadureceram (SIQUEIRA, 2012, p. 84).

            Sobre as ideias de Pestalozzi, Cunha, Angélico e Medeiros Neta (2018, p. 63) realizaram um levantamento de autores que refletiram sobre as contribuições de Pestalozzi, de acordo com categorias como: concepção de criança, concepção de educação, método intuitivo, entre outros, como se observa no quadro abaixo.

 

            Pestalozzi é autor de obras como: As Horas Noturnas de um Ermitão (1780), Leonardo e Gertrudes (sua obra prima, de 1781), Minhas indagações sobre a marcha da natureza no desenvolvimento da espécie humana (1797), Como Gertrudes ensina suas crianças (1801) e muito mais (saiba mais em: Obras de Pestalozzi). Pestalozzi faleceu aos 81 anos de idade, em 1827. Em seu túmulo encontram-se as seguintes palavras:

Aqui jaz Henrique Pestalozzi, nascido em Zurique a 12 de janeiro de 1746, falecido em Brugg a 17 de fevereiro de 1827.

Salvador dos pobres em Neuhof.

Pregador do povo em “Leonardo e Gertrude”.

Pai dos órfãos, em Stanz,

Criador da nova Escola Elementar, em Burgdorf e Munchenbuchsee; em Yverdon, educador da Humanidade.

Homem, Cristão, Cidadão.

Para os outros tudo, nada para si mesmo. Abençoada seja a sua memória. (LOPES, 1981, p. 99)

 

Pedagogia Intuitiva e Integral

            Se suas principais contribuições ao campo pedagógico e educacional, Pestalozzi cunhou a chamada Pedagogia Intuitiva que consiste em

oferecer, na medida do possível, dados sensíveis à percepção e observação dos alunos. Essa pedagogia fundamentava-se na psicologia sensualista, cujos representantes afirmavam que toda a vida mental se estrutura baseando-se nos dados dos sentidos, ou, empregando um vocabulário pedagógico, valendo-se do concreto (ZANATTA, 2012, p. 106).

            A Pedagogia Intuitiva afirma que a vida mental é estruturada com base nos dados fornecidos pelos sentidos. Mas a intuição não consiste em uma mera visão passiva dos objetos, mas inclui a atividade intelectiva. A educação deve partir dos objetos e das impressões, para só então chegar ao pensamento e à ideia. Primeiro a criança entra em contato com os objetos através dos sentidos e só depois deve ser expresso em palavras de onde se segue a atividade mental.

Por isso é que a base do método intuitivo de Pestalozzi é a “lição das coisas”, acompanhada de exercícios de linguagem para se chegar às ideias claras. O método da “lição de coisas” caracteriza-se por oferecer dados sensíveis à observação, indo do particular ao geral, do concreto experienciado ao racional, chegando aos conceitos abstratos. Daí a ênfase ao contato direto com a natureza, à observação da paisagem, ao trabalho de campo como pressupostos básicos do estudo (ZANATTA, 2012, p. 107).

            Pestalozzi “considerou a intuição a partir de duas perspectivas: uma sensível (ou exterior) e outra racional (ou interior)” (OLIVEIRA, 2017, p. 1010). A intuição sensível ocorre a partir da presença dos objetos exteriores perante os sentidos.

            É interessa notar, no que diz respeito a ideia de intuição, que esta ideia está próxima, ou envolve, o que hoje chamamos de indução, como observa Mesquida (2016, p. 24), ou seja, “a prática pedagógica deve ser desenvolvida, partindo do concreto para o abstrato, do sensível, da experiência, para a teoria, progressivamente”. E mais adiante: “O método procede por ‘gradação’, progressivamente, ‘do simples para o complicado’” (id., ibidem, p. 25). A indução é o método que leva do particular para o universal, do sensível (empírico) para o pensamento (abstrato). O ponto de partida do conhecimento é a intuição dos objetos (intuição sensível), que se dá pela percepção sensível das coisas concretas. O educador deve, então, ser um guia da criança na observação da natureza, que conduz a criança para observar e experimentar

É pelos sentidos que a criança apreende, ao usar a percepção sensível, o sentido dos objetos, das coisas [...] todo nosso conhecimento do mundo exterior procede da “impressão que os objetos do mundo exterior, oferecidos à nossa intuição produziu sobre nossos sentidos... Trata-se de uma educação precisa do ouvido, da visão, do toque” [...] Pestalozzi lança mão do desenvolvimento da faculdade intuitiva (indutiva) do ser humano: “a faculdade indutiva, quando não é mal dirigida, contra a natureza e desordenada, é suficiente por si mesma para conceder ao homem, em qualquer circunstância, uma representação clara e individual de cada um dos objetos que o cercam, pelos quais ela lhe oferece os diversos elementos que despertarão nele a atividade do intelecto” (MESQUIDA, 2016, p. 29-30).

            A Pedagogia Intuitiva de Pestalozzi pode ser melhor compreendida aplicada ao ensino da matemática e da linguagem, dos saberes elementares da matemática e da palavra: “partindo dos princípios elementares elencados por ele, a saber número, forma e palavra e da sua relação com as faculdades e capacidades humanas, de maneira gradual e intuitiva, a criança não só aprenderia como também, estaria sendo preparada para a vida” (FERREIRA; SANTOS, 2018, p. 14). Todos os objetos podem ser representados a partir destes três elementos: número (identificar o número de objeto), forma (conhecer sua forma para distingui-lo de outros objetos) e palavra (dar um nome ao objeto). A forma e o número são percebidas a partir da intuição sensível. Já a palavra, por sua vez, é uma construção intelectual.

            No ensino da matemática, a criança deve aprender sobre números, a partir do contato com objetos concretos para que, ao perceber tais objetos (duas bolas, por exemplo), ela possa associar com a quantidade (número dois). Além disso, partindo da observação das formas existentes na natureza (quadrados e retângulos, por exemplo) a criança começa a tomar consciência da superfície de tais objetos e de cálculos matemáticos implícitos em tais figuras geométricas. Um exemplo: uma atividade com linhas retas (para um exemplo sobre uma imagem formadas por diferentes linhas retas, de diferentes tamanhos e divididas em diferentes partes, ver Oliveira, 2017, p. 1020). A partir da observação da forma “linha reta” é possível construir ou reproduzir diferentes formas geométricas. É possível formar uma superfície que pode ser nomeada por figura, como um triângulo ou quadrado. A partir de um determinado número de linhas, a criança deve reproduzir as formas de objetos que ela conhece e ao formar determinada figura, vai-se construindo as noções de triângulo ou quadrilátero.

No método intuitivo pestalozziano, cada linha, cada medida, cada propriedade, cada desenho, cada figura é uma produção da inteligência impulsionada pelas impressões sensíveis. Em resumo: os saberes geométricos são construções intelectuais que vai da observação para o raciocínio (OLIVEIRA, 2017, p. 1023).

            No que diz respeito a alfabetização da criança, ela deve ser desenvolvida a partir dos sentidos, do vínculo sobretudo da visão (mas também da audição e do sentir) das coisas da natureza, dos objetos e das palavras que as expressam. É fundamental estabelecer uma relação entre a palavra e o objeto que ela representa. O caminho do aprendizado segue o caminho do objeto à palavra, a partir do qual a criança aprende a escrever e se comunicar: “lhe possibilitando aprender a dar nomes às coisas, a dominá-las pela palavra (PESTALOZZI, 2013), perfazendo o processo que leva do “conhecer ao pensar e nomear” (MESQUIDA, 2016, p. 31).

O Método de Pestalozzi repousa sobre três fundamentos: a percepção natural ligada à língua, a forma e o número. O primeiro fornece o conhecimento necessário dos objetos e da língua e aborda o que diz respeito à aprendizagem da palavra e da leitura; o segundo expõe o Alfabeto da intuição que desempenha o mesmo papel para a medida do espaço, a escrita e o desenho do alfabeto apropriado à leitura; o terceiro, enfim, desenvolve, sob a base do precedente e da noção de unidade, as relações que os números têm com eles mesmos e a sua aplicação ao espaço e à medida da grandeza (Relatório Ith, de julho de 1802 apud MESQUIDA, 2016, p. 37).

            Pestalozzi defendeu ainda a educação integral da criança, concebendo a educação a partir das dimensões: intelectual (que inclui a intuição), profissional (refere-se ao aprender trabalhando, realizando atividades práticas), moral (ou religiosa, que consiste na formação de valores) e afetiva, todas interligadas entre si. Daí sua famosa frase, de que a educação deve incluir cabeça, coração e mão (tête, coeur, main). Com esta ideia, Pestalozzi enfatiza a mente (educação intelectual), o sentimento (educação moral e afetiva) e a importância da ação (educação física): “Modernamente, poderia ser traduzida pela fórmula saber pensar, saber sentir, saber agir, sendo que o saber pensar é nutrido pelo sentir assim como o saber agir tem sua fonte dinâmica no coração” (MESQUIDA, 2016, p. 21). A formação intelectual deve ser acompanhada da formação dos sentimentos e interligadas com a ação. “A educação tem como finalidade a formação do homem na sua integralidade assentada nas disposições morais, intelectuais e físicas” (OLIVEIRA, 2017, p. 1013).

 

            Pestalozzi procurou aplicar em seus Institutos o princípio da educação integral. O objetivo do aprendizado é proporcionar uma formação tripla: intelectual, física e moral. Pestalozzi afirmava ainda que a educação deve proporcionar às crianças o desenvolvimento de suas habilidades naturais e inatas. Pestalozzi comparava o ofício do professor ao do jardineiro, que devia providenciar as melhores condições externas para que as plantas (no caso os educandos) seguissem seu desenvolvimento natural, a partir da ideia de que a semente traz em si o gérmen de todo o seu desenvolvimento e que irá se transformar em uma árvore.

 

Inspiração na natureza

            Como cristão devoto e seguidor do protestantismo, Pestalozzi chegou a se preparar para o sacerdócio, mas abandonou essa ideia em favor da necessidade de viver junto da natureza. Inspirou-se, nesse ponto, nas ideias do filósofo Jean-Jacques Rousseau, tomando “a concepção da educação como processo que deve seguir a natureza e princípios como a liberdade, a bondade inata do ser e a personalidade individual de cada criança” (ZANATTA, 2012, p. 106).

Tanto a defesa de um olhar voltado ao ambiente natural quanto a construção de novos conceitos de criança, família e instrução escolar a que Pestalozzi se dedicou devem-se muito à sua leitura de Rousseau, personagem central do Iluminismo. Esses dois suíços acreditavam que o ser humano de seu tempo, cerceado por convenções sociais e influências que o distanciam de sua índole original, era sempre “bom” (CURY, 2017, p. 7).

            Suas crenças religiosas também exerceram influência neste ponto, afinal, sendo Deus o criador do homem e da Natureza “a compreensão do que é o homem passa pela compreensão das relações que o homem trava ou deveria travar com a Natureza, a começar pelas relações com a Natureza que está no homem, isto é, com a Natureza Humana” (ARCE, 2002, p. 89). Sendo a Natureza boa, o homem também é bom, nasce com qualidades puras “e estas precisam ser cultivadas dentro da sociedade na qual ele estará inserido” (ARCE, 2002, p. 90). Para um pensador cristão, não há como pensar de outra forma, pois se o homem é criador por Deus, existe uma natureza divina em seu interior que só pode ser boa. A natureza de Deus é perfeita e para Pestalozzi “impossível se perguntar quem é o homem sem antes se perguntar pelo Criador e a ele dirigir graças” (ARCE, 2002, p. 94). Brettas (2018) ressalta a crença de Pestalozzi na bondade da natureza humana por ser de uma natureza divina e sua crença no amor:

Em minha última carta, expus minha sincera convicção de que, na criança, se dá uma disposição que, com a ajuda divina, pode capacitá-la a cumprir - e não com o objetivo de distinguir-se com isso entre as demais pessoas - o máximo mandamento de seu Criador, isto é: caminhar sob a luz da fé, com o coração pleno daquela caridade sobre a qual está escrito que ‘tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais acabará’ (I Coríntios, 13,7-8). A esta disposição, tal como se manifesta no primeiro estágio da vida humana, eu a tenho chamado de capacidade de amor e de fé (PESTALOZZI, 2003b, p. 26 apud BRETTAS, 2018, p. 425).

            O método pedagógico deve se inspirar na natureza. O educador deve saber ler e imitar a natureza, dando atenção à evolução (aptidões e necessidades) das diferentes fases do desenvolvimento da criança, respeitando os estágios de desenvolvimento pelos quais passam as crianças. A criança é concebida “como um organismo que se desenvolve de acordo com leis definidas e ordenadas, contendo em si todas as capacidades da natureza humana reveladas na unidade entre mente, coração e mãos” (ZANATTA, 2012, p. 106). Como organismo, seu desenvolvimento ocorre de dentro para fora e, por isso, a educação não deve ser vista como algo que deve apenas preencher a criança de informação (de fora para dentro): “o mais importante não é ensinar determinados conhecimentos, mas desenvolver a capacidade de percepção e observação dos alunos” (ZANATTA, 2012, p. 107).

            A ideia que se fazia de criança, família e instrução, a que Pestalozzi se dedicou, devem muito a sua leitura de Rousseau, considerando o ser humano excessivamente cerceado por convenções sociais e influências do meio, distanciado de sua essência original – que seria essencialmente boa para Rousseau e um ser puro, bom e possuidor de uma natureza divina para Pestalozzi.

 

Família e Afetividade

            A escola idealizada por Pestalozzi deveria ser tanto uma extensão do lar como inspirar-se no ambiente familiar, para oferecer uma atmosfera de segurança e afeto.

            E neste contexto tem um papel fundamental o amor: “o educador devia demonstrar afetividade, ser amoroso e ético para com as crianças, para que despertasse nelas os sentimentos de reciprocidade e com isso incitar o seu interesse e o desenvolvimento intelectual e moral” (MIRANDA; SANTOS, 2015, p. 5).

            Para a mentalidade contemporânea, amor talvez não seja um conceito comum quando se fala em educação. Poucos educadores hoje em dia, no entanto, questionariam a influência que a afetividade pode ter no direcionamento do aprendizado de um indivíduo. Dos pensadores modernos e contemporâneos que teorizaram sobre os afetos, talvez nenhum deles tenha dado tanto importância ao amor, em particular ao amor materno, quanto Pestalozzi. Mas também o amor tinha força salvadora, capaz de levar o homem à plena realização moral e de encontrar conscientemente, dentro de si, a essência divina que lhe dá liberdade.


Referências Bibliográficas

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BRETTASM, Anderson Claytom Ferreira. Johann Heinrich Pestalozzi, a trajetória e a fundamentação da pedagogia moral. Revista Profissão Docente, Uberaba-MG, v. 18, n. 39, p. 415-431, jul./dez, 2018. Acesso em: 28 fev. 2020.

CUNHA, Luana Pereira da; ANGÉLICO, Milena Guerra; MEDEIROS NETA, Olivia Morais de. Mapeamento bibliométrico da produção científica: elaborando conhecimento sobre Pestalozzi. Rev. Bras. de Iniciação Científica (RBIC), Itapetininga, v. 5, n.4, p. 58-69, jul./set., 2018. Acesso em: 25 fev. 2020.

CURY, Fernando Guedes. A presença de ideias de Rousseau, Pestalozzi e Piaget nas pesquisas brasileiras sobre o laboratório de ensino de matemática. EM TEIA – Revista de Educação Matemática e Tecnológica Iberoamericana, v. 8, n. 1, p. 1-19, 2017.

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LOPES, J.L. Pestalozzi e a educação contemporânea. Duque de Caxias: Centro de Editoração e Jornalismo da AFE, 1981.

MESQUIDA, Peri. O método em Pestalozzi: a matemática como caminho para a verdade. HISTEMAT – Revista de História da Educação Matemática, v. 2, n. 1, p. 19-39, 2016. Acesso em: 26 fev. 2020.

MIRANDA, Marcia de Fatima Rinck; SANTOS, Marlene Aparecida Rinck dos. As contribuições de Johann Heinrich Pestalozzi para a educação. Anais do IX EPCC – Encontro Internacional de Produção Científica UniCesumar, 03 a 06 de novembro de 2015, Maringá-PR.

OLIVEIRA, Marcus Aldenisson. Pedagogia Intuitiva da Escola Elementar de Pestalozzi: como se ensinava Aritmética? Bolema: Boletim de Educação Matemática, Rio Claro (SP), v. 31, n. 59, p. 1005-1031, dez. 2017. Acesso em: 27 fev. 2020.

SIQUEIRA, Luíza de Lima. A família e a escola como ambientes formadores segundo Pestalozzi. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia). Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP, 2012.

SOËTARD, M. Johann Pestalozzi. Recife: Massangana, 2010. (Coleção Educadores)

ZANATTA, Beatriz Aparecida. O legado de Pestalozzi, Herbart e Dewey para as práticas pedagógicas escolares. Rev. Teoria e Prática da Educação, v. 15, n. 1, p. 105-112, jan./abr. 2012. Acesso em: 24 fev. 2020.

 

         

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