Platão e a série Divergente

Platão e a série Divergente

por Stephanie Caroline Farias Dias

acadêmica do curso de Pedagogia/UFAM

postado em nov. 2019

 

            O ser humano está sempre em busca de algo utópico, perfeito e algo que jamais fora contado a nenhum outro ser. Imaginamos diversas situações e construímos paradigmas que regem a nossa natureza e o nosso modo de agir perante a sociedade.

            Diante dessa busca pelo perfeito, você irá fazer uma viagem pelo mundo da ficção e da filosofia, a partir de uma análise comparativa entre a trilogia de grande sucesso em nossa geração, Divergente, de Veronica Roth e o livro de Platão A República.

            A questão aqui não é tratar da popularidade de um ou de outro, a ideia é fazer uma analogia entre ambas, já que as mesmas tratam de uma utopia, uma sociedade suas leis em busca de uma vida ideal e assim tentar entender os ditos livros de leitura dificultosa e melhor compreender o que os filósofos tanto querem nos ensinar. Além de ampliar a nossa visão perante a consciência humana, sempre buscamos o melhor para a nossa vida e idealizamos um futuro próximo ou não.

 

Objetivos dos autores

            Temos de um lado um autor ferido pela dor da perda de seu grande mestre Sócrates, Platão. Um homem mergulhado num sentimento de injustiça e é esse sentimento que irá fazer Platão começar a idealizar sua cidade-Estado perfeita, um local onde prevaleça a educação e, sobretudo, a justiça para com os cidadãos. Esse é o tema central de sua obra: A República

            Do outro lado temos uma autora que nem imagina estar escrevendo um Best-seller, quem diria que uma ficção fosse chamar tanta atenção de críticos e da população jovem-adulta, que simplesmente se apaixonaram por tal história; um mundo separado por qualidades, onde cada pessoa tem o seu local dependendo de sua criatividade, inteligência, força ou algo que rege suas decisões.

            A autora da série cria uma sociedade dividida em facções, já que a sociedade antiga fora destruída por guerras e, desta forma, oferece uma resposta para uma pergunta que Platão não consegue responder: “como começar meu modelo de sociedade perfeita?”. Para a autora, o próprio homem acaba com a sociedade antiga e constrói um novo modelo que julga ser o melhor. Platão apenas idealiza, mas não implanta. Seu esboço de Estado ideal fica concluído, porém o tema é abandonado. Platão olha para a sua obra e vê um quadro pintado de Sócrates, que, segundo ele, é um homem perfeitamente justo, imagem de sua essência e de sua felicidade. A filosofia que irá construir esse novo mundo em gestão. A cidade ideal de Platão também é dividida por grupos: os governantes, os guardiões e aos artesões. Cada indivíduo pertence a um grupo de acordo com suas qualidades e tem uma função específica na cidade. Os governantes devem ser sábios e justos. Os guerreiros devem adquirir a virtude da coragem e da temperança e por isso precisam alcançar a perfeição moral, física e intelectual. Os artesões devem possuir como principal virtude a temperança e moderação.

 

Efetivamente, na República, Platão idealiza uma pólis que é composta por três diferentes grupos sociais: o dos reis filósofos, dos guardiões e dos artesãos. A cada uma dessas classes, Platão atribui uma virtude (areté) correspondente. Os filósofos, segundo ele, devem governar porque a Filosofia lhes concede a virtude da sabedoria (sophía), através da educação da sua natureza, apropriada para tal colocação. Do segundo segmento social, composto pelos guardiões do Estado, a virtude apropriada é a da coragem (andreía), visto que são eles que irão lutar, sob as ordens do governo dos filósofos, para defender as leis e os costumes da pólis. A terceira classe é a composta por artífices, trabalhadores, artesãos e comerciantes, que têm por virtude, conjuntamente com as outras classes, a temperança (sophrosýne) (SOARES, 2015, p. 17).

 

            Pereira (2011, p. 3) por sua vez ressalta como essa divisão tripartite da sociedade faz uma analogia com a estrutura da alma dos indivíduos onde os guardiões representam a parte irascível da alma (impetuosidade), os artesãos a parte concupiscível (ligada à temperança) e os filósofos a parte racional que tem a função de governar a cidade.

            Ambas as obras tratam do ser humano, da sua consciência e sua capacidade de se modificar perante uma sociedade já estabelecida. Que é o que acontece conosco, já nascemos predestinados a crescer, se desenvolver, estudar, passar na universidade ou simplesmente trabalhar até chegar a nossa velhice e nos aposentar tomando vários remédios por dia. É algo cultural, podemos mudar algumas coisas, mas não o mundo por completo, manifestos e lutas são válidos por causas particulares, mas essa é a nossa realidade, a mudança é sucinta.

 

Governo e Educação

            Para Platão, o homem que deve governar tem que ter muito conhecimento, e, na época, quem detinha o conhecimento e quem o passava eram os filósofos, ou seja, esse homem teria que ser um rei-filósofo ou governante-filósofo. Por isso na República de Platão temos uma sofocracia: um governo (cratos) dos sábios (sophos). “Platão defende a tese de que é imprescindível que sejam os filósofos a governar ou que os reis e soberanos se tornem filósofos, porque somente o filósofo é dotado” (PEREIRA, 2011, p. 4) das principais virtudes: sabedoria, justiça, temperança e coragem.

 

Repetimos aqui, a similar declaração Sócrates profere, que se encontra tanto nas Cartas, quanto na República, de que “enquanto não forem, ou os filósofos reis nas cidades, ou os que agora se chamam reis e soberanos filósofos genuínos e capazes, e se dê esta coalescência do poder político com a filosofia”, ou, “enquanto as numerosas naturezas que atualmente seguem um destes caminhos com exclusão do outro não forem impedidas forçosamente de o fazer não haverá trégua dos males,” diz o filósofo a Gláucon, “para as cidades, nem sequer, julgo eu, para o gênero humano, nem antes disso será jamais possível e verá a luz do sol a cidade que há pouco descrevemos” (SOARES, 2015, p. 86).

 

            Além disso o filósofo rei não poderia ter riqueza alguma e suas vestes, calçados e até a sua alimentação deve ser concedida pela população. Ele educa a todos. Um homem que ama a filosofia, um homem justo e que sempre pensa no bem-comum. O povo é a sua família, assim como a felicidade deve ser um bem de todos e não apenas de uma classe social; a alegria e a tristeza de um deveriam ser a alegria e tristeza de todos.

            Por sua vez Verônica propõe em seu primeiro livro Divergente que a facção que detinha o poder era a Abnegação, pois é a que mais se distancia do egoísmo, eles pensam no outro, ajudam a todos sem olhar para o “próprio umbigo”.

            Na República de Platão para torna-se um governante é necessário passar por uma série de exames e observações mantidas desde a infância de cada um, assim como aparece na obra Divergente, onde cada um, independente da sua qualidade, é obrigado a fazer um exame para saber onde é o seu local, qual é o grupo mais semelhante de acordo com as escolhas que a pessoa irá fazer no teste.

            Ocorre também a necessidade dos indivíduos passarem por testes onde se pode verificar sua sabedoria, talento e a preocupação de cada um. Platão se preocupa em ver qual é o indivíduo que mais se preocupa com o bem-comum, a sua incorruptibilidade e o seu autodomínio são postos à prova por meio de tentações de todas as espécies. Na sociedade de Platão, tornam-se “guardiões” aqueles que chegam sãos e salvos ao fim de algumas provas. Os demais são apenas “auxiliares” daqueles. Na série Divergente a autora cria várias sociedades: Abnegação que é a altruísta, Erudição que valoriza o conhecimento (professores, médicos, advogados etc), Audácia que defendem os arredores da cidade, Franqueza onde impera somente a verdade e a Amizade que acredita no amor, na paz acima de tudo e não participam das decisões na cidade. Cada facção desempenha sua função e possui qualidades específicas.

            No Estado de Platão há uma ética da arte da guerra, onde os guerreiros aprendem a teoria da guerra, como se portar, o que fazer e não fazer e em seguida ficam em contato com a guerra: os filhos dos guerreiros iam para a guerra, eram ensinados por “pedagogos” (homens experientes que guiavam essas crianças) e quando ficava muito perigoso para essa criança ela era retirada da área de combate o mais breve possível.

            Quando a Tris (personagem principal) escolhe a sua facção é determinado a ela que passe por um treinamento bem rigoroso onde acontecem várias situações que a deixam bem abalada, porém ela não desiste. Treina, corre, se machuca, mas sempre ergue a cabeça para os novos desafios. É possível observar muito o machismo pelo fato das características femininas, por ser mais fraca que um homem em termos de força, mas ela consegue superar todas as expectativas.

            Na República de Platão podemos falar de um projeto ético, político e pedagógico, onde a educação tem uma papel primordial. No livro Insurgente, a Erudição (conhecimento acima de tudo) derruba o poder da Abnegação e a governante (Jeanine Mattews) também tem esse pensamento, ela acredita que o exame é a base que vai organizar a sociedade, mas ela sabe que há aqueles que se enquadram em todas as facções, sendo esses uma ameaça ao sistema, recebem o nome de Divergentes, os “foragidos” que buscam abrigos em várias facções.

 

As mulheres e as crianças

            A mulher sempre foi vista como um sexo frágil, com desigualdade e machismo, no entanto, Platão, mesmo na época dele, já quebrava essa barreira em pensar que a mulher só deve fazer apenas serviços domésticos como estar atrás do fogão, limpando casa e cuidando dos filhos. Ele defende que a mulher é diferente do homem em questões naturais (genéticas), porém possui as mesmas aptidões para realizar os feitos masculinos. A mulher deixa, assim, de ser vista apenas para o lar e afins. “No início do Livro V de A República, através da voz de Adimanto (R. V449) fica claro que para a doxa ateniense da época as mulheres têm como única atividade possível a procriação e os filhos a de receber educação, dada a sua natureza” (KUNZ; STUMPF, 2010, p. 4).

            Elas começam a ganhar um espaço, são incluídas nas atividades profissionais dos homens ditos “guardiões”, fazem as mesmas coisas que o homem (ginástica nua e música). Começa então a trabalhar a mente da mulher para desenvolver mais as suas aptidões. Todavia, se Platão ressalta que em termos de educação é possível pensar uma igualdade entre homens e mulheres

 

Jaeger (1995, p. 815) nota que esses aspectos igualitários referem-se apenas às mulheres pertencentes à classe dos guardiões, ou seja, à elite, e que isso não se estenderia a toda a população trabalhadora que manteria as relações conjugais tradicionais, educação tradicional, etc. (apud KUNZ; STUMPF, 2010, p. 5).

 

            A autora da série Divergente, por sua vez, está bem preocupada com essa questão também e percebemos isso através da sua escolha para quem seria a personagem principal, uma mulher foi a sua decisão e durante o enredo essa mulher não entende o motivo de usar só roupas cinza, não poder se olhar no espelho e ser privada de fazer muitas ações. Não entende o porquê de seguir os padrões estabelecidos pela facção/sociedade em que ela nasceu. Sente-se deslocada, sente estar no local errado e quando essa personagem faz a prova para determinar a facção que ela deverá ficar, o resultado é surpreendente para ela, a mesma é apta para todas as facções, ou seja, uma divergente. Então ela escolhe a que mais atrai ela, a Audácia.

            Com relação às crianças, Platão idealiza um local em sua cidade onde ficam as crianças, as mães amamentam os bebês, mas elas não sabem quem é o seu filho, não há sentimento de mãe para com o filho, pois ela tem que “querer” a todos por igual.

            No caso da Tris (personagem principal), ela nasce e é criada de acordo com o modo de vida de sua família que fazem parte da Abnegação e com uma determinada idade é imposto à prova para ela descobrir onde é o local destinado a ela. Nesse novo local ela precisa se adaptar com o novo modo de vida, precisa socializar, e se adaptar com a nova vida dela. E esse termo “família” é desconstruído nesse momento, não há um laço como temos e vemos nos dias atuais. A família, nesse caso, é apenas uma fase da vida desse indivíduo, há o amor e a preocupação para com o outro, mas não é um laço eterno. É na adolescência que cada habitante deve realizar o teste de aptidão, que revelará sua qualidade e natureza.

            Portanto, A República é uma obra de formação humana. Estão presentes padrões e modelos de comportamento assim como na Trilogia Divergente. Achar que o termo “utopia” é algo inexistente em nossas vidas é estar numa situação de ignorância, pois é algo que está em todos os lugares até dentro do nosso pensamento, modo de ser e existir. Atualmente vivemos numa distopia de mundo, só enxergamos o erro, achando que a vida é insuportável, mas sonhamos numa sociedade ideal e perfeita. Não há como realizar os sonhos se só nos vemos em situações de calamidade. O homem constrói sua realidade, ele é vítima de sua própria criação.

 

 

Referências Bibliográficas

JAEGER, Werner. Paideia: A formação do homem grego. (Trad. Artur M. Parreira). Martins Fontes: São Paulo, 1995. (p. 812 - 817)

KUNZ, Júlio César; STUMPF, Elisa Marchioro Stumpf. A República e a mulher: educação e formação na (des)construção do gênero. Anais do V CINFE – Congresso Internacional de Filosofia e Educação, Caxias do Sul-RS, maio de 2010.

PEREIRA, Rosalie Helena de Souza. Platão, Al-fârâbî e Averróis: as qualidades essenciais ao governante. Trans/Form/Ação, Marília, v.34, n.1, p.1-20, 2011. Acesso em 14 nov. 2019.

SOARES, Guilherme de Freitas. O filósofo e o éthos político na República de Platão. Dissertação (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria-RS,  2015.

 

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