Poética Feminista

Poética Feminista

por Luana Pantoja Medeiros

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postado em fev. 2018

            Uma das questões primordiais do termo “poética feminista” na literatura, é a atribuição de voz aos sujeitos das margens, sujeitos tradicionalmente silenciados e ignorados, onde descentramento é, nas palavras de Ginzburg (2012, p 201), “um conjunto de forças voltadas contra a exclusão social, política e econômica”. A mulher na narrativa é a personagem que está à margem social no qual as temáticas giram em torno de questões do feminino, de conflitos externos e internos relativos à identidade, além das relações amorosas, a violência doméstica contra a mulher, vaidade, vingança, efemeridade do tempo, cotidiano e a lição das experiências de vida.

            Todo este estado de coisas, esta atmosfera de sentimentos humanos, é o centro da poética produzida por mulheres, porque “esses textos literários estão voltados  para uma concepção de linguagem que, contrariam a ideia de uma articulação direta em ter palavra e referente a externo, que sustentaria o efeito de real” (GINZBURG, 2012, p. 212).

            Em outras palavras, a linguagem dos textos de uma poética feminista, passa a ter uma relação descontínua com o referente, passando a existir formas de interpretações baseadas não na representação mimética, mas na estética realista, ela desprende-se da concepção que o imaginário masculino romantizou sobre o cotidiano de mulheres. Agora elas passam a escrever, sobre sua própria condição e seu ponto de vista, segredos, desejos, sentimentos íntimos e dores existenciais. 

            Uma das autoras que tem se debruçado sobre produções poéticas de mulheres, segundo Murgel (2009), é Maria Helena Vianna. Entre seus estudos, Vianna revela que existem características próprias na escritura de mulheres, principalmente o que elas revelam na poesia. Vianna chama este tipo de escrita de Poética feminista.

            Na poética feminista, alteridade é definida como relações que se estabelecem entre o eu e o outro nos processos discursivos instaurados, histórico e espacialmente pelos sujeitos, que sempre esteve presente no processo de constituição social que se concretiza a partir das relações subjetivas de interação e poder.

            O poder na sociedade é definido pelos lugares de fala e pela escolha do discurso, e a escolha deste discurso é permeada pelas relações de poder e, portanto, aponta para quem o detém. Para ser um ser social, é necessário que o sujeito estabeleça relações intersubjetivas e interpessoais com o outro sujeito. O estabelecimento desta relação exige de si uma postura em relação ao outro, precisa-se reconhecer que nem todos veem o outro que o “eu” vê, nem todos sentem o que o “eu” sente.  Aproveitando-se do conceito de poética feminista proposto por Vianna e através de poemas publicados nas décadas de 1970 e 1980 por Alice Ruiz, Ana Cristina e Ledusha, Murgel (2009, p. 1) propõe “ampliar suas possibilidades na leitura da poesia escrita por mulheres, onde a poética se traduz em reinvenções de si e em uma escrita feminista de si”.

            Para Vianna (2003, p. 2), “a poética feminista deve ser entendida como uma discursividade produzida pelo sujeito feminino que assumidamente ou não, contribua para o desenvolvimento da consciência feminista”, a consciência que é de natureza política, para as mulheres, isso possibilita construir conhecimentos de si, de seus direitos e de sua desigualdade voltada para o compromisso estabelecido com relação ao papel que reafirma o gênero feminino.

Poética feminista é poética empenhada, é discurso interessado. É política (...) memória coletiva é normativa e moralizante (...) os dois tipos de memória se cruzam na ficção escrita por mulheres, mas Vianna privilegia a memória individual como a chave política dessa poética. (MURGEL, 2009, p. 6).

            Vianna (2003) se volta para a memória individual dessas mulheres como categoria fundamental de uma poética feminista, “porque esta autora percebe a memória individual, como e faz o inventário caótico das coisas mínimas, enquanto que a memória coletiva é normativa e moralizante”(apud MURGEL, 2009, p. 6). 

            A poética feminista se apropria dos elementos de subversão das memórias coletivas e individuais para reafirmar uma identidade de gênero, mas é na ironia, sarcasmo e paródia, que esta poética se transforma em ação política dos olhares feministas nas artes. Vejamos aqui, alguns versos de Alice Ruiz utilizados no corpus do trabalho de Murgel (2009), que se apropriam da paródia para subverter a identidade feminina:

Drumundana

 

e agora Maria?

o amor acabou

a filha casou

o filho mudou

teu homem foi pra vida

que tudo cria

a fantasia

que você sonhou

apagou

à luz do dia

e agora Maria?

vai com as outras

vai viver com a hipocondria

(Ruiz, 1984:60)

 

Na poética feminista, há também uma apropriação de autores conhecidos em versos rápidos. Uma crítica direta com a intenção explícita de apontar os paradoxos, numa inversão desestabilizante do pensamento. Se “José”, de Carlos Drummond de Andrade, era um homem com conflitos dentro de uma existência masculina já explorada e vivida (não há mais caminhos), a Maria, de Alice Ruiz, é uma mulher limitada pela existência dentro de um “padrão do feminino”: ela viveu a vida que se esperava de uma mulher, para o marido e para os filhos. No olhar da poeta, uma vida resumida, fechada, sem sentido, uma não-vida. Se José insiste em caminhar e ir em frente apesar das limitações, Maria só pode esperar a morte, porque aprendeu a morte em vida (MURGEL, 2009, p.8).

            Nesta citação de Murgel (2009), fica claro os preceitos da poética feminista de Vianna (2003), através de uma paródia bastante conhecida, de um poeta consagrado como Carlos Drummond de Andrade, descreve-se a memória individual de uma mulher, que viveu como mulher, e nada mais pode esperar de sua existência. É nas entrelinhas, na análise profunda que a poeta engessa sua arte sob um viés político, subvertendo a identidade, e fazendo com que as mulheres passem a enxergar a “natureza” de suas vidas, a memória coletiva, em uma relação de alteridade.  

 

A emancipação político-social e a literatura

            Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo (1949), problematizou a questão da mulher na sociedade, segundo sua crítica, “a mulher como o outro é vista como escrava e o homem como senhor, e ao afirmar que ninguém nasce mulher, torna-se mulher (...) a mulher não tem passado, nem história, nem religião própria” (apud SOUSA 2009), o feminismo mostra que a natureza da diferença de gênero é uma construção social, onde a ideologia masculina constrói todas as diretrizes de conceitos e preceitos que, ao logo dos tempos, se tornaram hegemônicos.  

            A filosofia existencialista de Beauvoir (1949) afirma que não existe uma essência que marginalize a mulher, mas sim uma situação, e esta situação a impossibilita de transcender sua essência, sendo limitada aos cuidados domésticos, a criação dos filhos, ao privado, enquanto que os homens pertencem ao lugar do público e da assembleia. O que a filosofia existencialista de Beauvoir nos deixou de herança é a ideia de que somos sujeitos livres e responsáveis pela nossa existência. Posso escolher me limitar aos padrões estabelecidos pela sociedade e me acomodar no lugar que ela determinou para mim, ou posso escolher transcender os condicionamentos sociais e usar a minha liberdade para realizar o meu projeto, o projeto que estabeleci para minha existência.

            Vejamos agora uma poesia que, a revelia, uma mulher se desfaz e refaz o seu destino, expondo sua angústia, e sua vontade de libertar-se de algo, que parece tão normal ao cotidiano de qualquer mulher.  

 Rainha de Mim

 

Quando fui embora,

Não quis te ferir.

Não quis nada para você, somente para mim!

Larguei o avental,

As roupas no varal,

Coloquei açúcar ao invés de sal.

E sai sem olhar para trás.

Decidi;

Nem esposa (de)

Nem mulher (do)

Quis ser Dona de mim, e não Dona fulana.

E agora sou Rainha, não do lar, essas coisas deixei pra lá.

Rainha de mim.

O fim foi recomeço até aqui.

(Luana Medeiros)

            A recusa de uma vida sem possibilidades, a ironia das palavras de quem não se importa mais em errar, o que foi para ela, toda vida, um erro, uma prisão, transmite a subversão de uma identidade, é a própria contra hegemonia, a mulher não é mais a rainha do lar, porque ela não quer mais ser, e, neste momento, sabe que pode não ser.  Ela fez uma escolha.

            Portanto, é na ironia, no sarcasmo, na paródia ou no pastiche que a arte dessas mulheres se apropria de outros poetas já consagrados, canções ou mitos, arquétipos, construídos sobre sua condição, e os reescrevem, se inscrevendo/escrevendo o cotidiano em “sua arte uma estética feminista da existência” (MURGEL, 2009, p.13). 

 

Referências

VIANNA, Lúcia Helena. “Poética Feminista – Poética da Memória” in Labrys Estudos Feministas, nº 4, Brasília: Montreal: Paris - Agosto/Dezembro de 2003. (https://www.unb.br/ih/his/gefem).

GINZBURG, Jaime. Literatura, violência e melancolia. Campinas, São Paulo: Autores Associados, 2012.

MURGEL, Ana Carolina Arruda de Toledo. A poética feminista em Alice Ruiz, Ledusha e Ana Cristina César. Revista Aulas (UNICAMP), v. 7, p. 1-16, 2009.

SOUSA, Marilza Rodrigues Toledo e. Do corpo ao texto: a mulher inscrita/escrita na poesia de Hilda hilst e Ana Paula Tavares. Tese de Doutorado. Faculdade de filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo: São Paulo, 2009.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. Trad. Sérgio Milliet: Difusão europeia do livro, Rio de Janeiro, 1980.

 

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