Projeto Ético-Político-Pedagógico na República de Platão

Projeto Ético-Político-Pedagógico na República de Platão

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em 2013

atualizado em mar. 2020

            O título deste texto faz alusão a uma clara analogia com o conceito de Projeto Político-Pedagógico (PPP) ou Projeto Pedagógico do Curso (PPC). Da mesma forma como as diferentes escolas (municipais, estaduais e federais) e os diferentes cursos de graduação das universidades e faculdades de nível superior precisam desenvolver o seu Projeto Político-Pedagógico com a caracterização do curso ou da escola, estrutura e funcionamento, matriz curricular, concepção metodológica e demais aspectos pertinentes ao seu funcionamento, assim também é possível perceber uma espécie de programa ético-político-pedagógico na República (em grego: Πολιτεια; politéia) de Platão, como sugere o nosso título. Esta obra de Platão considera a possibilidade de se educar o filósofo e colocá-lo no poder. Há um vínculo estreito entre educação, ética e política na Πολιτεια (República), como veremos mais adiante.

            “A República contém em suas páginas o que se poderia chamar de projeto político-educativo, pois toda a argumentação ali posta recai fundamentalmente sobre duas questões: a política na pólis e a educação do cidadão” (MENESCAL, 2009, p. 65). Com efeito, o projeto educativo de Platão é também um projeto político, como afirma Lara (1989) e também para Hadot (2008) quando destaca a possibilidade de transformar a vida na polis através da educação filosófica de homens sábios e justos. “A República é a idealização de uma cidade perfeita, uma cidade modelo dirigida por filósofos, onde a divisão de tarefas se aplica à totalidade de cidadãos. Uma cidade justa só pode ser povoada por cidadãos igualmente justos” (LAZARINI, 2007, p. 4).

            A obra é bem mais vasta e complexa: “existem questões sobre conhecimento, metafísica, moral, educação, estética, religião, mas todas elas são discutidas tendo em vista a política (a cidade ideal ou justa)” (VICENTE, 2014, p. 215). Mas para os nossos objetivos, iremos considerar como “a República elaborada por Platão foi pensada a partir da educação dos cidadãos, pois, segundo o filósofo, somente pela educação apropriada os homens saberiam conduzir a sociedade por caminhos que a levariam à plena felicidade” (MENESCAL, 2009, p. 69).

Disponível em: Blog do Molina (Acessado em: 10/03/2016)

 

            A realidade política de Atenas estava marcada pela injustiça e pela corrupção, fazendo com que Platão elaborasse um “programa” onde caberia à Filosofia resgatar a ordem e a justiça nas relações sociais. A Πολιτεια foi escrita em um contexto

de uma democracia degenerada: Platão nasceu no seio de uma influente família ateniense que gozava de prosperidade econômica, mas cresceu num período politicamente conturbado em Atenas. Na sua juventude viu a oligarquia dos Trinta corromper Atenas [sobre a ditadura dos 30, alguns dos problemas da época histórica em que viveu Platão e como isso contribuiu para a análise do filósofo sobre o problema da educação em sua República, ver Santos (2007)], enquanto a democracia que lhe sucede, de forma escandalosa, condena Sócrates à morte (em 399 a.C.) (VICENTE, 2014, p. 216).

            Platão ficou chocado com a morte de Sócrates, pois este não era para ele um homem comum “era, também, o mais sábio e o mais justo, era o seu mestre de inspiração” (VICENTE, 2014, p. 216). Por isso o seu “projeto pedagógico” visava instaurar uma política fundamentada nos valores dos seus governantes e cujo fim primeiro era norteado pelo princípio de justiça. A justiça afigura-se como a virtude suprema e fundamento da polis e, dessa forma, é preciso educar os cidadãos atenienses[1] de acordo com tal virtude, pois a obediência às leis levará à harmonia social, ao passo que sua desobediência propicia a degeneração dos regimes políticos.

            A relevância da educação no seu pensamento como marca singular de sua filosofia buscava edificar uma sociedade a partir de novos laços integrativos e comunitários[2]. Dentro de um Estado como o planejado na Πολιτεια de Platão, os interesses privilegiados pela organização da polis são os interesses do conjunto social, e a classe governante deve promover o bem-estar geral. Este é um Estado onde rege o princípio da ação em favor da coletividade, como condição para a realização plena da vida de cada indivíduo.

            Ao longo desta obra, Sócrates[3] idealiza um modelo de sociedade: uma Πολιτεια perfeita, dirigida por reis-filósofos, educados de acordo com a concepção filosófico-pedagógica de Platão. A Πολιτεια não é só um livro que trata da organização e administração de uma sociedade (Política), mas de como os seus governantes devem se distinguir dos demais habitantes pelas suas virtudes (Ética) e de como Educar (Paidéia/Pedagogia) estes governantes para que eles possam atingir um grau tal de sabedoria que os permita ocupar um cargo tão importante, como o é o de administrar esta sociedade, tal como afirma o filósofo do iluminismo Jean-Jacques Rousseau (1999, p. 12) sobre a República, dizendo que esta obra é o “[...] mais belo tratado de educação jamais escrito”. O programa a que nos referimos pode ser entendido da seguinte forma: uma sociedade, para que ela seja justa, precisa ser governada por pessoas sábias e justas, que precisam, por sua vez, receber uma formação específica para exercer tal mister. Nisto consiste, segundo nossa interpretação, o projeto Ético-Político-Pedagógico da Πολιτεια de Platão.

            Mas antes de conhecer em detalhes como se dá esse projeto ao longo da Πολιτεια , vejamos um pouco sobre a estrutura da obra, pois a mesma já revela alguns aspectos importantes da filosofia platônica.

 

Parte II - A Estrutura da República

Parte III - Paidéia: A Educação dos Guardiões

Parte IV - Paidéia: A Educação dos Filósofos

Considerações Finais

Referências Bibliográficas

 

 

[1] Uma educação popular na realidade só é considerada por Platão em sua obra As Leis. A República trata mais especificamente da educação e formação dos guardiões e governantes da sociedade, ou seja, daqueles que tem uma função pública essencial para a administração da sociedade.

[2] É possível afirmar que Platão é o primeiro pensador a defender o caráter público da educação, entregando ao poder público comunitário a responsabilidade não só de sua execução como também sua formulação teórica.

[3] Sócrates aparece como protagonista da maior parte das obras de Platão, inclusive A República.

 

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