Thiago de Mello: a poesia como crítica social, em defesa da floresta e dos povos que nela habitam

Thiago de Mello: a poesia como crítica social, em defesa da floresta e dos povos que nela habitam

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em fev. 2019

            Poeta amazonense, Thiago de Mello nasceu em 1926, na cidade de Barreirinha, no interior do Estado do Amazonas, reconhecido atualmente como um ícone da literatura regional. Thiago de Mello preferiu seguir sua carreira de poeta e, por isso, abandonou o curso de Medicina na Faculdade de Medicina na Praia Vermelha, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Já nessa época teve alguns de seus poemas publicados no jornal Correio da Manhã. “Em pouco tempo, conquistou a amizade de Manuel Bandeira, José Lins do Rego e de outros autores de renome” (LIMA, 2012, p. 61).

 

“Thiago de Mello Capa de Silêncio e Palavra”

(LIMA, 2012, p. 62).

 

            Seu primeiro livro foi escrito aos 25 anos, intitulado Silêncio e Palavra, de 1951, e mereceu uma crítica de Álvaro Lins “um dos mais influentes críticos brasileiros da década de 40 [...] e consagra Thiago como um dos grandes poetas de sua geração” (LIMA, 2011, p. 132). “Alceu Amoroso Lima, por sua vez, o considerava – em meados da década de 1960 – ‘um dos grandes poetas do nosso tempo (...) e dos mais típicos representantes da ‘geração de 1945’, a que nasceu para as letras depois da morte de Mário de Andrade’” (FERREIRA; SILVEIRA, 2017, p. 185).

 

“Discurso de posse na Academia Amazonense de Letras”

(LIMA, 2012, p. 63).

 

            Em pouco tempo ficou bastante conhecido a ponto de, em 1955, ser aclamado membro da Academia Amazonense de Letras “tomando posse em 20 de janeiro de 1955 e ocupando a cadeira 29, de Castro Alves (antiga cadeira n. 2 de Tito Lívio de Castro)” (LIMA, 2012, p. 63).

            Preso durante a ditadura militar, exilou-se no Chile, e ficou hospedado na casa de ninguém menos do que Pablo Neruda de quem se tornou amigo e colaborador. Um traduziu a obra do outro e Neruda escreveu ensaios sobre o amigo. “De acordo com o autor amazonense, era rotina para o amigo [Neruda] escrever todos os dias e, por aproximadamente seis meses, os dois tra­balharam na mesma mesa, juntos, traduzindo um os poemas do outro” (RAYOL, 2013, p. 169).

            Dentre os livros de Neruda traduzidos por Thiago de Mello estão: Antologia poética de Pablo Neruda, Fa­rewell, Cadernos de Temuco: 1919-1920, Os versos do Capitão, Prólogos e finalmente Presentes de um poeta.

            Já Neruda, por ocasião do retorno de Mello para o Brasil, ho­menageia o amigo com o soneto Thiago y Santiago, no qual, ludica­mente, associa o nome da capital chilena ao do poeta brasileiro:

 

Thiago y Santiago

Thiago, A Santiago, como un vago mago,

has encantado en canto y poesía.

Sin San, has hecho de Santiago, Thiago,

un volantin de tu pajarería.

Al Este y al Oeste de Santiago

diste el Norte y el sur de tu alegría.

Muchos dones nos diste, un solo estrago:

llevaste el corazón de Anamaría.

Te perdonamos porque com tu bella,

de rosa en rosa y de estrella en estrella,

te llamará el Brasil a su desfile.

Te irás, hermano, con la que elegistes.

Tendrás razón, pero estaremos tristes,

que hará Santiago sin Thiago de Chile

(RAYOL, 2013, p. 170).

 

            Durante o exílio, Thiago de Mello morou ainda em países como a Argentina, Alemanha, França e Portugal. Thiago teve que sair do Chile porque o país também foi alvo de um golpe militar, em 1973, tendo ido se exilar primeiramente na Argentina. “Tempos depois, com a ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), exilou-se na Alemanha, na cidade de Mainz, onde permaneceu por mais de um ano” (LIMA, 2012, p. 67). Com o fim do regime militar, voltou à sua cidade natal, Barreirinha, onde vive até hoje. Thiago tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas: “a produção poética de Thiago de Mello atravessa o tempo e o espaço, é traduzida para mais de trinta idiomas do mundo inteiro, o que faz o poeta conhecido internacionalmente por sua luta em prol dos direitos humanos, pela ecologia e pela paz mundial” (NASCIMENTO; MONTEIRO, 2011, p. 2).

            Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana. O poema foi escrito no Chile, no período do exílio, e traduzido por Pablo Neruda para o espanhol Los estatutos del hombre. “O texto foi dedicado a Carlos Heitor Cony, um dos primeiros intelectuais a levantar-se contra a ditadura militar com a sua crônica O Ato e o Fato publicado em 11 de abril” (LIMA, 2012, p. 66).

            Thiago ganhou vários prêmios pela sua produção, dentre os quais o prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras e  um prêmio concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, em 1975, ainda durante o regime militar, pelo livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, que tornou-o conhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos   Direitos Humanos  . Além disso, ganhou dois prêmios Jabuti, em 1997 e 2002, pelos livros De uma vez por todas e Campos de Milagres, respectivamente.

 

Thiago De Mello Recebe Na Câmara Municipal Placa Comemorativa Pela Passagem De Seu Aniversário de 90 anos

Disponível em: Câmara Municipal de Manaus. Acesso em 07 fev. 2019.

 

A Poesia Insubmissa: poesia como crítica social

            A produção poética de Thiago de Mello traz em seus versos e prosas uma insatisfação com a sociedade, por isso, a voz insubmissa do poeta consagra sua atividade literária a várias causas, dentre as quais podemos destacar: a preservação da floresta amazônica e, por conseguinte, a questão ecológica (sobre esta temática, veja o texto em nosso site: A estetização da floresta e da natureza na obra de Thiago de Mello); a questão dos direitos humanos; a temática indígena e de integração cultural da América Latina; a luta por uma sociedade mais humana e solidária.

            Thiago de Mello é um poeta engajado nas causas sociais: “a inquietação social faz parte da história da poesia desde o começo da humanidade, a poesia nasce do povo, por isso digo ‘aqui está a minha vida pronta para ser usada’” (MELLO, 2011). Pontes (1999, p. 30) entende a poesia insubmissa como uma produção de “enfretamento e livramento da opressão detectada pelo poeta e acolhimento de sua poesia pela coletividade sedenta de verdade”. Assim, para o poeta, a poesia deve servir também à sociedade (ALVES; MERINO, 2015, p. 95).

            É preciso considerar a este respeito o fato do exílio na época da ditadura, que deixou marcas profundas no poeta, a ponto de escrever seu mais célebre poema – Os Estatutos do Homem –, nesse período. Outro exemplo é o poema Canto do meu canto, “que explora a criação da poesia como de responsabilidade humana e social e não apenas estética, mas histórica” (ALVES; MERINO, 2015, p. 95). O próprio exílio de Thiago pode ser visto como uma forma de tentar calar o poeta, com seus poemas que tratam da liberdade e da degradação dos homens.

            O poema Os estatutos do homem tem um caráter de crítica social e uma postura ética e política. Thiago de Mello faz alusão ao fatídico 31 de março de 1964, data do golpe militar que instaurou a ditadura no país, no artigo II: “Fica decretado que todos os dias da semana, / inclusive as terças-feiras mais cinzentas, / têm direito a converte-se em manhãs de domingo” (MELLO, 2004).

 

            Já no artigo V, o poema “traz uma sutil provocação ao Ato Institucional-1, que tinha vigência até 31 de janeiro de 1966, uma vez que Os Estatutos do Homem representava um Ato Institucional Permanente” (LIMA, 2012, p. 66).

 

Artigo V

Fica decretado que os homens

estão livres do jugo da mentira.

Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio

nem a armadura de palavras.

(MELLO, 1981, p. 217)

 

            Os Estatutos do Homem faz referência a várias temáticas sociais e políticas. Desde o título e subtítulo fica clara sua intenção. O subtítulo Ato Institucional Permanente, revela como o “período foi tomado de atos institucionais (decretos) forjados pelo governo para reprimir a todos aqueles que ousassem contra o sistema a que o país fora submetido” (TABORDA, 2012, p. 32). Thiago revela toda sua inquietação com a condição humana imposta pela ditadura e que o levou ao exílio.

            Consequência de sua voz insubmissa, a prisão e o exílio se tornaram motivo para dar vazão a sua voz. Mas não foi apenas a ditadura no Brasil que surtiu efeito sobre a produção literária de Thiago de Mello. Paula (2012) destaca como a ditadura chilena e a derrocada do projeto socialista de Salvador Allende se tornou matéria fecunda para Ferreira Gullar e Thiago de Melo, ambos exilados no Chile: “todo o livro Poesia Comprometida com a minha vida e a sua, de Thiago, estão carregados de referências ao período: a experiência do exílio, no plano pessoal, e o testemunho da construção do socialismo e do golpe militar chileno, no plano histórico” (id., ibidem, p. 6).

            Sua militância poética, portanto, tem como pano de fundo duas ditaduras militares, vistos ora como uma derrota dolorida, ora como um aprendizado, ora pela via da esperança de um mundo melhor.

            Por fim, Lima (2012, p. 66) destaca uma fala de Thiago à Revista Direitos Humanos, em que o poeta fala do compromisso da arte não apenas com o estético, mas ético e social (veja o texto em nosso site:  Arte Engajada ): “O compromisso essencial da arte é com a beleza, estamos de acordo. Mas acho que a poesia, além da finalidade estética, deve ter uma utilidade ética. Estou dizendo que a Poesia deve servir à Vida, da qual ela nasce (MELLO, 2009, p. 41)”. Thiago fala do compromisso do escritor com a vida, com o homem, com o seu tempo, com a realidade histórica e cultural. Lima (2012, p. 69) completa: “Pensando a literatura não apenas como um objeto de contemplação estética, mas também como afirmadora de valores humanos, ele adotará, como uma das marcas de sua poesia, seu posicionamento contra as injustiças sociais e a violação dos direitos humanos”.

 

A Temática Indígena

            Ao conduzir o leitor em uma viagem pela extensão do Rio Amazonas, sua obra Amazonas: Pátria da água retrata a história de seu povo, dos índios que chegaram à Amazônia, com seus cantos, suas angústias e sofrimentos, mas anuncia a esperança de que a vida ainda pode ser salva. Para o poeta, a devastação da floresta “implica na devastação de toda uma cultura à mercê da ganância do capital” (MARQUES, 2010, p. 91).

            Nesse processo os povos indígenas passaram por um período de aculturação onde muito de seus valores e tradição ficou perdido no passado. Alves e Merino (2015) destacam, a este respeito, o monólogo de um índio que passa a imagem de um alguém perdido dentro de uma cultura que não é a sua:

 

Já deslembrado da glória

radiosa de conviver,

já perdido o parentesco

com a água, o fogo, as estrelas,

Já sem crença, já sem chão,

Oco e opaco me converto

Em depósito de restos

Impuros do ser alheio.

Resíduo de mim, a brasa

do que já fui me reclama,

Como a luz que me conhece

de uma estrela agonizante

dentro do ser que perdi.

(MELLO, 2005, p. 74).

 

            O processo de colonização que durou séculos no Brasil causou tanto a destruição da floresta como da própria população indígena e a consequente perda de seus mitos e lendas.

 

Eles eram mais de um milhão quando aqui chegou o colonizador europeu. De extermínio em extermínio, depois de quatrocentos e tantos anos, hoje eles não chegam a cinqüenta mil. E desses, quase todos já perderam, feridos fundamente na essência dos valores de sua etnia, a sua própria condição de índios. Uns poucos ainda resistem, escondidos nas últimas lonjuras da selva, fugindo ou evitando ao máximo, quando podem, o contato com os chamados agentes da civilização (MELLO, 1987, p. 449).

 

            O poeta fala das lendas indígenas e de como representam mais do que simples histórias.

 

Em entrevista ao Movimento Humanos Direitos (2009), Thiago revela que sente uma grande tristeza quando visita alguma aldeia e a sua população já não se lembra de suas lendas. As lendas, para o poeta, representam mais do que simples histórias, pois elas sempre contêm um ensinamento, como O caso da Neca, lenda sobre a mentira e a maldade que contavam às crianças; como também a história do boto, que alerta para os perigos da água provocados “[...] pelas doenças adquiridas na convivência constante do homem com a água. A água poluída [...] A água contaminada [...] Água que o homem suja [...] Mas há algumas doenças oriundas da própria água” (ALVES; MERINO, 2015, p. 102).

 

Referências Bibliográficas

ALVES, Ruane M. K.; MERINO, Ximena A. D. Poesia em compromisso com o Amazonas. Revista Texto Poético, v. 11, n. 18, p. 89-107, 2015. Acesso em 25/09/2018.

FERREIRA, Paulo Afonso Nunes; SILVEIRA, Diego Omar da. “Poesia comprometida com a minha e a tua vida”: Thiago de Mello e a recepção de sua obra em Barreirinha, no Amazonas. Revista Eletrônica Mutações, v. 8, n. 15, p. 181-200, jul./dez. 2017.

LIMA, Pollyana Furtado. Fundamentos para um estudo da fortuna crítica de Thiago de Mello. REVELL – Revista de Estudos Literários da UEMS, v. 1, ano 2, p. 123-135, ago., 2011. Acesso em 25/09/2018.

____. Thiago de Mello: Fortuna Crítica (1951-1960). Dissertação (Mestrado em Letras). Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2012.

MARQUES, Marcos Aurélio. Literatura e Geografia: a poética do lugar em Thiago de Mello. Dissertação (Mestrado em Geografia). Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal de Rondônia-UNIR, Porto Velho, 2010.

MELLO, Thiago de. Melhores Poemas. Marcos Frederico Krüger Aleixo (Seleção e prefácio). São Paulo: Global, 2009.

____. Os estatutos do homem. 2 ed. Cotia, SP: Vergara e Riba Editores, 2004.

____. Vento Geral. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.

NASCIMENTO, Cássia M. B. do; MONTEIRO, Gilson Vieira. Thiago de Mello na Mídia: poesia viva e insubmissa. II Conferência Sul-Americana/VII Conferência Brasileira: Mídia Cidadã. Belém-PA, 17 a 22 de outubro de 2011.

PAULA, Marcelo Ferraz de. O exílio de poetas brasileiros no Chile de Allende: esperança, desilusão e memória. Revista Crioula, n. 11, p. 1-17, mai., 2012. Acesso em 27/08/2018.

PONTES, Roberto. Poesia insubmissa afrobrasilusa: estudo da obra de José Gomes Ferreira, Carlos Drummond de Andrade e Agostinho Neto. Edições UFC, Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1999.

ROYAL, Luciana de Moraes. Pablo Neruda e Thiago de Mello: tradutores/amigos em diálogo. Cadernos CESPUC de Pesquisa, Série, Ensaios, n. 22, p. 167-177, 2013. Acesso em 25/09/2018.

TABORDA, Dircélia Aparecida. Representações de engajamento social em poemas de Thiago de Mello, Vinícius de Morais e Carlos Drummond de Andrade. Monografia (Especialização em Literatura Brasileira e História Nacional). Programa de Pós-graduação de Literatura Brasileira e Historia Nacional, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2012.

 

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