Virtù e Fortuna em Maquiavel

Virtù e Fortuna em Maquiavel

por Alexsandro M. Medeiros

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postado em: mai. 2022

            A obra O Príncipe, de Maquiavel, tem um objetivo claro: oferecer ao governante uma espécie de manual para que o mesmo possa se manter no poder. Ao examinar a realidade do poder nos principados, Maquiavel prescreve a conduta mais adequada para um príncipe. Qual deve ser essa conduta? Na visão do pensador florentino, um bom governante é aquele dotado de perspicácia, habilidade, astúcia, prudência, vigor, energia. O conjunto dessas qualidades é o que Maquiavel chama de virtù. “Etimologicamente, virtù deriva do latim virtus, que significa força corpórea, ânimo, valor, bravura, coragem, força de alma, energia, boas qualidades morais, mérito” (DIAS, 2004, p. 902).

          Dias (2004) pondera que este é um dos conceitos centrais da obra O Príncipe, pois é somente através da virtù que um príncipe pode alcançar a estabilidade no poder do estado. Ao mesmo tempo, é um conceito enigmático, pois não encontramos nenhuma definição na obra ao mesmo tempo em que é utilizado em diferentes sentidos. Virtù é um termo de significado polissêmico, como pondera Ames (2019, p. 17), sendo “a principal qualidade requerida para o êxito na ação política”. O termo aparece 71 vezes ao longo da obra e há, pelo menos, 11 sentidos diferentes em que o termo é utilizado, segundo Dias (2004). É um conceito “equívoco e ambíguo: numa determinada passagem do texto, Maquiavel chega a empregar quatro acepções diferentes de virtù num único parágrafo!” (DIAS, 2004, p. 901-902).

          A virtù é a virtude, mas não se trata da virtude moral relacionada com os valores cristãos da bondade, do altruísmo, da benevolência pois, segundo Maquiavel, o Príncipe deve levar em consideração a natureza corrupta dos seres humanos, ou seja, que os homens são volúveis, ambiciosos ou que estão constantemente em busca de poder (saiba mais em: A Ética em Maquiavel). Ao escolher Cesare Bórgia, como veremos mais adiante, como modelo de príncipe virtuoso, é fácil perceber que a virtude do príncipe está nos antípodas da moral cristã.

Sei que vão dizer que seria muito louvável que um príncipe, dentre todas as qualidades acima, possuísse as consideradas boas. Não sendo isso, porém, inteiramente possível, devido às próprias condições humanas que não o permitem, necessita ser suficientemente prudente para evitar a infâmia daqueles vícios que lhe tirariam o estado e guardar-se, na medida do possível, daqueles que não lhe fariam perdê-lo; se não o conseguir, entretanto, poderá, sem grande preocupação, deixar estar. Também não deverá importar-se de incorrer na infâmia dos vícios sem os quais lhe seria difícil conservar o estado porque, considerando tudo muito bem, encontrar-se-á alguma coisa que parecerá virtú e, sendo praticada, levaria à ruína; enquanto uma outra que parecerá vicio, quem a praticar poderá alcançar segurança e bem-estar (MAQUIAVEL, 1996, p. 74).

            Com base na imensa variedade de significados que o conceito de virtù pode adquirir, podemos destacar pelo menos quatro características principais:

a) é um atributo fundamentalmente político, que deve ser possuído por aqueles que governam os estados; b) em quase todos os usos, a palavra virtù se refere a uma capacidade de se antecipar, de prever acontecimentos futuros e para eles se preparar, escolhendo os meios adequados; c) a sua independência de quaisquer prescrições morais faz com que essa adequação se faça apenas em função dos fins visados, e posteriormente, e não de antemão, segundo a natureza em si dos meios escolhidos, donde a importância da capacidade de antecipação do homem virtuoso; e c) (sic) esses meios envolvem necessariamente, embora não exclusivamente, o uso ou possibilidade de uso da força (DIAS, 2004, p. 904-905).

            Uma questão que deve ser considerada, tem a ver com o desejo de Maquiavel de ver uma Itália unificada que, na sua época, se encontrava grandemente dividida. Esse desejo fica evidente ao vermos o título do último capítulo a obra O Príncipe: Exortação a tomar a Itália e libertá-la das mãos dos bárbaros (bárbaros era a forma como os romanos se referiam aos estrangeiros, ou seja, àqueles que não falavam o Latim).

          No capítulo final de sua obra, Maquiavel compara a situação da Itália a de um doente em estado terminal: “Desse modo permaneceu a Itália como que sem vida, à espera de quem sanasse suas feridas e pusesse fim aos saques da Lombardia, à espoliação do reino de Nápoles e da Toscana, e a curasse de suas chagas há longo tempo apodrecidas” (MAQUIAVEL, 1996, p. 124).

        O projeto de unificação, desejado por Maquiavel, exigia “um príncipe que saiba agir de acordo com as exigências concretas postas por seus objetivos” (DIAS, 2004, p. 900). Um príncipe que tenha “a capacidade de determinar a ação adequada para o fim de manutenção do poder estatal. Essa capacidade é chamada por Maquiavel de virtù” (DIAS, 2004, p. 901). E ainda, que era necessário um governo que tivesse a seu dispor grande força armada e que fosse “capaz de domar, pela força ou pela astúcia, os interesses mesquinhos de nobres, ricos e pobres” (DIAS, 2004, p. 894).

          Ao conceito de virtù temos um outro que aparece relacionado, que é o de Fortuna: deusa romana do destino, do acaso e da sorte (boa ou má). A Fortuna é tão necessária quanto a virtù ao príncipe que deseja se manter no poder. A Fortuna é uma força que não pode ser dominada e por isso representa o elemento da imponderabilidade das coisas humanas. Nenhum governante deve confiar apenas na Fortuna na hora de governar um Estado sem ter a capacidade de exercer a virtù. Como pondera Gomes (1993, p. 81): “Virtú e fortuna, capacidade de ação eficaz e acaso, compõem, assim, o terreno incerto da política. Eles são interdependentes pois, para Maquiavel, metade das coisas que acontecem no mundo são obra da virtú e a outra metade da fortuna”.

A virtú sempre está ligada à fortuna, esta relação entre ambas não é uma relação de confronto ou oposição, mas de necessidade. Como o movimento está sempre presente na obra de Maquiavel, a virtú, que interessa ao homem, visa sempre à conservação ou evolução, já a fortuna, pode tanto ir de encontro e propiciar a ocasião para que o fim pretendido seja alcançado, quanto pode ser um entrave para isto (MAGALHÃES, 2015, p. 14).

            Maquiavel compara a Fortuna com uma espécie de rio impetuoso “[...] cujos danos podem ser evitados ou ao menos minorados por homens previdentes que construam diques e canais para contê-lo. Contra as inundações causadas pela fortuna, somente podem os homens precaver-se com a virtù” (DIAS, 2004, p. 908). Um bom governante é aquele que procura antecipar-se em relação às enchentes dos rios, às tempestades marítimas, ao imprevisível e às mudanças constantes. Em relação a Fortuna, a ação de um príncipe de virtù é aquela “capaz de criar antecipadamente as condições para uma intervenção eficaz no sentido de controlar seus previsíveis efeitos negativos” (AMES, 2019, p. 12). Mesmo diante da imprevisibilidade da Fortuna, é possível pensar na possibilidade de criar mecanismos capazes de responder às suas variações. Tal é a imagem dos “diques e canais” que possa contê-la.

          A questão da virtù e da fortuna aparece desde o início da obra O Príncipe, quando Maquiavel trata dos principados. Para Maquiavel é impossível, por exemplo, a fundação de um novo principado, se o seu fundador não tiver virtù.

Aqui o Autor não diz que o fundador necessite ser de grande virtù, mas que necessariamente ele precisa tê-la. A questão do quanto de virtù seria necessário ao fundador surge não no momento da fundação, pois para esta ocasião além da fortuna não é necessária grande virtù, mas sim para a consolidação do principado. Diz Maquiavel que quanto mais virtuoso for o príncipe e de menos fortuna tiver necessitado para a fundação, menos dificuldade terá de mantê-lo; e ao contrário, quanto mais fortuna tiver necessitado e menos virtù tiver precisado o príncipe para a fundação, maior dificuldade terá para manter o principado (MAGALHÃES, 2015, p. 16)

 

Exemplos Históricos

            Para fundamentar suas ideias, Maquiavel recorre a fatos históricos, tanto para falar da virtù como também da sua falta o que, neste caso, acabaria por permitir que a fortuna dominasse o resultado. Ele cita o caso do rei Luz da França.

          A virtù do rei Luiz consistiu em adquirir vários aliados, proporcionando uma certa situação de conforto. Entre seus aliados estavam: “Gênova, Florença, Mântua, Ferra, os Bentivolgi, a senhora de Foli, o senhor de Faenza, de Pesaro, de Rimini, de Camerino, de Piombino, Lucca, Pisa e Siena” (MAGALHÃES, 2015, p. 20).

           Por outro lado, o rei Luiz haveria cometido pelo menos seis erros que demonstrariam a ausência de virtù:

eliminou os menos poderosos; aumentou, na Itália, o poder de um poderoso; introduziu nela um forasteiro poderosíssimo; não veio residir no local; não instalou colônias. Contudo enquanto viveu, poderia não se ter prejudicado com esses erros se não tivesse cometido um sexto: o de tirar o estado dos venezianos.” (MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe: São Paulo; Martins Fontes; 2010, p. 17, apud MAGALHÃES, 2015, p. 20).

            Outros erros do rei Luiz foram (MAGALHÃES, 2015, p. 20-21): apoiar o papa Alexandre a conquistar a Romanha, fazendo um movimento contrário ao que desejam seus aliados (com isso, ele se enfraqueceu e fortaleceu o próprio papa); convidar o rei da Espanha para conquistar o reino de Nápoles, sendo que o domínio do reino de Nápoles seria dividido.

Desta forma, ficam claros os erros cometidos pelo rei de França, pois com o seu agir tornou grande a Igreja e a Espanha na Itália, causando sua própria ruína. A falta de virtù do rei Luiz propiciou o desenvolvimento da virtù do papa Alexandre e do rei da Espanha. Por este motivo a fortuna agiu contra o rei de França, fazendo com que não atingisse o seu objetivo final e a mesma agiu favoravelmente ao papa Alexandre e ao rei da Espanha (MAGALHÃES, 2015, p. 21).

            Foi assim que a grandeza da Igreja e da Espanha, na Itália, foi causada pelo próprio rei Luiz: “De onde se extrai uma regra geral, que nunca ou raramente falha: arruína-se quem é causa de outro tornar-se poderoso, porque esse poder é causado ou com a indústria, ou com força, e ambas são suspeitas a quem se torna poderoso” MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe: São Paulo; Martins Fontes; 2010, p. 18, apud MAGALHÃES, 2015, p. 21).

          É preciso salientar também, que encontramos na obra de Maquiavel, contra-exemplos de príncipes que fracassaram, em razão de sua conduta orientada por princípios morais.

Os mais notáveis são os de Savonarola e de Soderini. O primeiro encarna o modelo do “profeta desarmado”: aquele que possui o talento necessário para convencer os homens de suas ideias, mas fracassa porque se recusa a prover-se de armas para sustentá-las quando as palavras perdem força (Príncipe VI). O segundo é modelo do “homem bom”: sábio, honesto, paciente, respeitador das leis e instituições, que acredita que a bondade é suficiente para extinguir a maldade de seus inimigos, mas fracassa porque se recusa a usar da violência e dos meios extraordinários para conter os adversários quando a necessidade o exige (Discursos III, 3; III, 30) (AMES, 2019, p. 26).

 

O Caso de César Bórgia

 

Muitos leitores de Maquiavel costumam dizer que, ao imaginar um príncipe capaz de unificar a Itália, o escritor florentino não tinha em mente outra pessoa que não César Bórgia. Com a sua morte, ele passou a ser a referência modelar que deveria ser observada pelo príncipe que estivesse disposto a empreender a formação do Estado italiano, imaginada por Maquiavel (CORTINA, 1995, p. 102-103).

            César Bórgia é tomado como exemplo de um príncipe que soube utilizar para seu benefício a virtù e a Fortuna. É no cap. 7 d’O Príncipe que Maquiavel relata a trajetória de Cesare Borgia, o Duque Valentino.

             A Fortuna esteve com Bórgia enquanto seu pai era papa, Alexandre IV, que o apoiava nas suas empreitadas. É dessa época que Bórgia conquistou o estado da Romanha, com o apoio dos soldados do rei de França, por causa da influência do papa. Acontece que, temendo pelo que podiam fazer os que o ajudaram nessa conquista, ou seja, o rei de França e as armas dos Orsini, Bórgia resolveu eliminar os partidos dos Orsini e dos Colonna em Roma.

Os Orsini, ao perceberem que o duque e a Igreja ocasionariam sua ruína, causaram ao duque vários problemas após a conquista do “Estado”, que somente conseguiu manter-se graças à França. Assim, utilizando-se da fraude, fingiu ser amigo dos Orsini, e por isso, o duque os presenteou e os agradou. Desta forma, conseguiu o duque eliminar os chefes dos Orsini em Sinigália. Estes fatos garantiram ao duque estabilidade no poder, que aquela época já detinha “toda Romanha e mais o ducado de Urbino, além de ter conquistado a amizade da Romanha e atraído para si todo o povo, que começava a gozar de bem estar” (MAGALHÃES, 2015, p. 21-22).

            O duque Valentino também procurou se precaver para que o rei de França não se voltasse contra ele. Além disso, temendo que, após a morte de seu pai, o seu sucessor no papado não fosse seu inimigo, César Bórgia agiu da seguinte forma:

Contra isso, procurou garantir-se de quatro modos: primeiro, eliminando todo o sangue dos senhores que havia espoliado, a fim de privar o papa daquela ocasião de intervir; em segundo lugar, atraindo para o seu partido todos os gentis-homens de Roma – como disse antes –  para como isso poder frear o papa; em terceiro, controlando o máximo possível de votos no Colégio; e, quarto, conquistando tanto poder antes da morte do papa que pudesse por si mesmo resistir a um primeiro ataque (MAQUIAVEL, 1996, p. 32).

          Foi exatamente após a morte de seu pai que aconteceu uma série de eventos desfavorecendo a sua boa sorte.

César Bórgia foi o exemplo máximo de Maquiavel, pois o duque representava os novos príncipes que encontravam problemas para governar, por estar lidando com um principado recém-adquirido. Segundo o nosso autor apresenta no capítulo VII, o duque Valentino teve a deusa fortuna ao lado e nela depositou muita fé e consequentemente acabou por arruinar-se, deixando de lado a virtú estritamente necessária a um governante que desejasse manter-se no poder de forma gloriosa, uma virtú política. Para Maquiavel, o príncipe deve ser sábio nas suas escolhas, deve ter, principalmente, astúcia afortunada, como bem afirma no capítulo IX. Na sorte não reina todo o poder de um príncipe. Deve-se, demonstra Maquiavel, ter equilíbrio entre a fortuna e a virtú, sendo esta última a maior qualidade de um governante (VALENTIM, 2014, p. 4).

            César Bórgia aproveitou a ocasião que lhe foi oferecida pela sorte para ascender ao poder no momento em que a sorte se apresentou para ele. Todavia, quando a sorte deixou de “sorrir para ele”, foi tragado pela força da contingência. César Bórgia confiou demais na sorte e não se preparou devidamente para situações adversas. Cometeu o erro de não desenvolver a virtù para o momento que lhe era necessário.

        Como pondera Bignotto (2003, p. 24), “a virtú, (…), diz respeito à capacidade do ator político de agir de maneira adequada no momento adequado”. O que não quer dizer que Bórgia não fosse um príncipe dotado de virtù, ele o era, mas apenas não soube dosar na medida certa a relação entre virtù e Fortuna.

          Maquiavel, ao comentar as ações de César Bórgia, toma-o como exemplo inclusive de um Príncipe cruel:

César Bórgia era considerado cruel e, contudo, sua crueldade havia reerguido a Romanha e conseguido uni-la e conduzi-la à paz e à fé. O que bem considerado, mostrará que ele foi muito mais piedoso do que o povo florentino, o qual, para evitar a pecha de cruel, deixou que Pistóia fosse destruída. Não deve, portanto, importar ao príncipe a qualificação de cruel para manter os seus súditos unidos e com fé, porque com raras exceções, é ele mais piedoso do que aqueles que por muita clemência deixam acontecer desordens, das quais podem nascer assassinos ou rapinagem (MAQUIAVEL, p. 69 apud GOMES, 1993, p. 86).

 

A virtù e a Fortuna nos Discursos

            O tema da virtù e da Fortuna é abordado por Maquiavel não apenas na obra O Príncipe, mas também nos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio. Eis o título do capítulo I, do Livro Segundo, desta obra: “O que contribuiu mais para o império conquistado pelos romanos: a virtù ou a fortuna?”. Eis o que pondera Maquiavel:

Muitos historiadores, entre eles, Plutarco – escritor de grande peso – sustentam que a expansão do império romano se deveu mais à sorte do que à virtude. Entre os seus argumentos, Plutarco cita a confissão dos próprios romanos, que atribuíam suas vitórias a Fortuna, deusa que tinha mais templos do que qualquer outra divindade. Tito Lívio parece também pensar assim, pois é raro, ao citar uma figura importante, que não mencione, ao lado do seu valor, sua sorte. Este, contudo, não é meu pensamento; e não creio que uma opinião diversa possa ser bem sustentada. Se nunca existiu outra república que tivesse feito conquistas iguais às de Roma, isto se deve a que nenhuma outra teve, desde o início, instituições tão apropriadas a este fim. Foi à coragem de seus soldados que Roma deveu as conquistas; mas foi à sua sabedoria, à sua conduta e ao caráter especial que lhe imprimiu seu fundador que deveu a conservação dessas conquistas, como demonstraremos amplamente em vários dos capítulos seguintes (MAQUIAVEL, 1994, p. 193).

            Como podemos perceber, as conquistas da república de Roma devem ser creditadas a virtù de seus exércitos e a sua conduta: sua sabedoria, o modo como ela procedeu e era constituída.

          Uma questão interessante a saber é: quem detém a virtù em uma República? Nos principados, é o príncipe quem deve ser dotado de virtù para garantir a manutenção do Estado. Já na República, a virtù está nos cidadãos como um todo o que faz, inclusive, que as Repúblicas sejam mais estáveis que os principados. Pois em um principado, morto o príncipe, não há nenhuma garantia de que o seu sucessor também seja dotado de virtù. “Morto o príncipe, como foi demonstrado anteriormente, provavelmente seu sucessor não terá a mesma virtù e a estabilidade do principado estará entregue a fortuna” (MAGALHÃES, 2015, p. 36). Por outro lado, ao não depender da virtù de um único homem, uma República se torna, por isso, mais estável e menos sujeita as intempéries da Fortuna. Há uma espécie de “virtù coletiva” na República (AMES, 2000, p. 138), ou virtude cívica, que faz com que os cidadãos sejam os responsáveis pela manutenção do Estado: “a virtù nas Repúblicas está localizada na virtude coletiva do povo” (MAGALHÃES, 2015, p. 40).

 

Referências

AMES, José Luiz. Maquiavel: A Lógica da Ação Política, Tese (Doutorado em Filosofia) – Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas, 2000.

AMES, José Luiz. Maquiavel pensador da ação política: uma análise a partir de O Príncipe. Princípios: Revista de Filosofia, Natal, v. 26, n. 49, p. 9-30, jan.-abr. 2019. Acesso em: 05 mai. 2022.

BIGNOTTO, Newton. Maquiavel. RJ: Zahar. 2003.

CORTINA, Arnaldo. As condições históricas de produção de O Príncipe de Maquiavel e sua organização discursiva. Alfa Revista de Linguística, São Paulo, vol. 39, p. 87-109, 1995. Acessado em 18/12/2015.

DIAS, Caio Gracco Pinheiro. Virtù, Fortuna e Moral em O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. Revista da Faculdade de Direito da USP, v. 99, p. 889-913, 2004. Acessado em 18/12/2015.

MAGALHÃES, Leonardo Vello de. Conflito e Liberdade em Maquiavel. Dissertação (Mestrado em Direito). Programa de Pós-Graduação em Direito, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.

MAQUIAVEL, Nicolau. Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. 3. ed. Trad. de Sérgio Bath. Brasília: UnB, 1994.

____. O Príncipe. Trad. Maria Júlia Goldwasser. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

 

 

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